‘Se eu pudesse, matava um panda’: momento sample do dia

Miguel Esteves Cardoso, escritor português, dê um google básico e leia tudo que encontrar pela frente. Aqui, um trecho de “O amor é fodido”.

“Adoro matar animais de todas as espécies.” Era o gênero de frase que me apaixonava. Uma vez estávamos a jantar e disseste “Se eu pudesse, matava um panda”: “Como?” “Matava-o com uma pedrada” “O que é que tens contra os pandas?” “Odeio animais amorosos.” Pensei que estivesses a defender os animais que não têm a sorte de ser giros ou estar à beira da extinção, que vivem em condições atrozes, sem serem temas de documentários ingleses ou logotipos de organizações mundiais. Como os frangos. Pensei que a tua atitude contra os tigres era uma cruzada a favor das ratazanas. Mas enganaste-me.

Um dia atravessou-se um rato à nossa frente e tu gritaste: “Mata-o!” Eu peguei num pau de vassoura e respondi: “Aproveita, Teresa! mata-o tu!” Tu olhaste-me com desprezo:”Tenho nojo.” Enquanto eu matava o pobre animal, com a minha habitual compaixão e inépcia, que tanto prolongam o sofrimento, enterneci-me com o teu temor e disse: “Tu não era capaz de matar nada.”

Passada uma hora, atropelaste um gato de propósito e disseste, triunfante: ” Estás a ver?” E acrescentaste, ante a minha cara branca: “Para se matar um bicho ele tem de ser minimamente fofinho. Os animais que não são fofinhos são portadores de doenças horríveis.”

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