Por debaixo do seu mundo

Acordei e passava das onze. O corpo quente e os pés frios. São as meias. As meias saem do seu pé durante o sono e se perdem debaixo das cobertas. Sempre igual. Eu entendo. Você deve estar pensando que eu preciso de meias melhores. Não é assim que funciona. É preciso um certo conhecimento para escolher suas meias para dormir, elas nunca podem ser novas. O argumento é que meias novas são apertadas e atrapalham a circulação do sangue no corpo. A verdade: elas têm de ser velhas o bastante para te dar o conforto da sua própria história. É bom ir para a cama sabendo que você já foi alguém um dia, é a certeza que você vai acordar pela manhã. Por isso eu uso aquela velha meia roxa que comprei quando viajei para o frio aos 15 anos.

Eu deixo que elas desapareçam uma a uma – algumas noites elas se vão em pares, em outras vezes acordo com só um pé, triste, enquanto o outro descansa dentro de uma meia de lã velha. Depois de três dias, levanto o edredom e lá estão todas. Rindo de mim. Você deve estar pensando que eu não arrumo a cama todo dia. É verdade. Isso não faz diferença alguma na vida. Não fazia.

Era inverno, passava das onze e o meu pé estava gelado. E era feriado, sabe como é, eu poderia continuar na cama infinitamente. Foi aí que me enfiei por baixo do lençol e logo encontrei uma meia de lã tricotada pela minha avó. Queria o par. Me arrastei ainda mais por entre os lençóis e cobertores embaralhados. Nada. Era um sinal. Tudo que eu precisava era de um gole de café para mudar o rumo do dia. Ir a um museu ver uma mostra de arte, isso me encheria de dignidade. Na cantina do escritório eu falaria das obras que vi e explicaria o conceito do artista, na verdade, eu repetiria o texto do catálogo mas, claro, com as minhas palavras. Então aconteceu: eu não conseguia achar a saída. Simplesmente assim.

Me arrastei para todas as direções. Não havia saída. Debaixo do edredom, fui perdendo a noção de espaço. Como eu tinha ido parar ali? Em outra situação eu teria um ataque de pânico, claustrofobia, choro, poderia até revirar os olhos. Mas não foi o que aconteceu. Eu me sentia em casa. É como se o meu mundo fosse aquele. Apenas esperando que eu chegasse lá para ser.

Agora os restos de cobertores e mantinhas tinham ficado para trás. Continuava minha exploração me arrastando por debaixo dos lençóis brancos. Algo chama atenção, um objeto marrom. É uma meia. Uma meia masculina. Penso nos últimos homens que frequentaram a minha cama. “Eu não sei se eu existo”, ele me disse. “Existe no meu desejo”. Era agora eu que me fazia a pergunta. Meias sintéticas. Não gosto de quem faz sexo com meias, coisa de um anticlímax absurdo. Uma mulher nunca faz sexo com meias, a não ser que sejam sete oitavos, o que já é fetiche. Sexo com meias, é como se você tentasse se agarrar a um traço de civilização e sexo não se trata disso. Enquanto eu continuava minha exploração, encontrei mais e mais meias, grandes, pequenas, estampadas, de crianças, de mulheres, de bolinha antiderrapantes, desgastadas, quase novas. Eu tinha chegado lá. Um lugar imaginário onde estão todas as meias perdidas do universo, nunca em pares. Se nem as meias, que nascem em pares, continuam assim por muito tempo, porque nós?

Foi aí que eu os encontrei. Ela tinha 12 anos, tinha feito aniversário naquela manhã. Ele, uma tatuagem manchada no braço direito envelhecido e 57. “Acabamos de chegar”, diziam. Só uma coisa estranha. Ela dizia que o ano era 1943 e o cara, 2003. Todos nós ficamos muito confusos ao recordar o momento em que entramos por debaixo dos lençóis, alguns minutos atrás. Eu juro que tudo aconteceu em 2010. Mas vendo isso só como um detalhe, as nossas datas de desaparecimento – ou aparecimento, côncavo e convexo, “quando a gente se beija, se ama e se esquece da vida lá fora” – o fato é que, naquele momento, formamos uma família. Foi assim que passamos a existir.

Desbravamos todos territórios, encontramos outras pessoas, nossa, de lugares do mundo que nem dá pra imaginar. Quando fica realmente frio, fazemos uma fogueira com as centenas de meias, elas estão por toda parte. Nos aquecem. Nos sentamos ao redor do fogo e falamos como era a nossa vida, do lugar de que viemos, das coisas bobas nas quais a gente acreditava. Um dia chegou um cachorro e também foi ficando. Somos quatro e irmãos. Tenho pesadelos horríveis, sim, mas não é sempre. Quando acontece, sei que terei um dia melancólico pela frente. Mas passa.

Não sei se ainda procuram por mim. Tenho saudades do mundo de antes e saudades dele também. De alguma forma, acho que continuamos juntos. “Você existe no meu desejo e eu existo no meu desejo de existir no seu”, eu disse enquanto ele se perdia em mim. “Tira minha calcinha, amor.” São lembranças.

Mas meu mundo agora é branco. Não é melhor nem pior que o seu.
Mesmo assim, eu aviso: cuidado ao procurar suas meias por debaixo dos lençóis.