`Excluímos de nós partes que queremos expulsar, elas retornam`

Jorge Mario Jáuregui é um arquiteto argentino que veio para o Brasil nos anos 70 (fugindo da ditadura, como a data dá pala). Um de seus atuais projetos é o que ele chama da “rambla” do complexo de Manguinhos. O Complexo de Manguinhos, no Rio, é composto de 11 favelas – 5 de um lado da linha do trem e 6 da outra. O plano : suspender a linha do trem para criar um espaço de convivência entre todos. Gosto do jeito como ele vê o urbanismo e a pulsão de uma cidade. E, com os acontecimentos dessa semana, me lembrei do texto que reproduzo abaixo.

Também publico um vídeo foi realizado para uma exposição sobre ele no Moma pelo fotógrafo (e seu filho) Gabriel Jáuregui, pela fotógrafa (e minha irmã) Daniela Dacorso e pelo fotógrafo Alexandre Lima (sim, ele também é parente de alguém!)

DO COMPLEXO DE ÉDIPO AO COMPLEXO DE MANGUINHOS, de Jorge Mario Jáuregui

“A existência de grandes áreas da cidade com habitantes excluídos dos benefícios da urbanidade, não deixa ninguém indene. Sabemos que quando excluímos de nós mesmos partes que queremos expulsar, elas sempre retornam. A exclusão e a expulsão de pedaços de nós, seja no plano individual ou no social, têm conseqüências.

O Complexo de Manguinhos não é apenas um conjunto de favelas do Rio, é também uma parte favelada (excluída) em cada um de nós, num processo que empobrece a todos: os que são obrigados a viver na favela por falta de opções, e os que estamos fora dela.

Uma pesquisa feita pelo IBASE analisando as relações entre a favela e o asfalto, mostra que os habitantes do asfalto olham para os da favela com desconfiança, e os da favela vêm os do asfalto como arrogantes. O preconceito rege estas relações, envolvendo uma atitude defensiva que mesmo frágil e ineficaz, trata de manter a ilusão de que mau é sempre o outro. Do ponto de vista psíquico lembra o mecanismo rudimentar descrito por Freud de formação do eu, no qual a criança ao discernir os primeiros objetos do mundo, se identifica com aquilo que considera bom e expulsa de si o que considera mau. Assim, cada um monta o puzzle do próprio eu deixando de fora tudo que é incômodo, desagradável e repulsivo para criar um ideal positivo de si. O resto é resto (ameaçador, inquietante, alheio). Grave engano este que tem trazido sempre conseqüências trágicas à humanidade, pois aquilo que aparentemente é o mais externo e distante está bem aqui, pulsando sob a nossa pele. Por isso a luta do “bem” contra o “mal” não deixa vencedores. Todos saem perdendo.

A psicanálise diz que o amor e o ódio são constitutivos do ser humano e que da sua mistura pode resultar tanto o mais bizarro quanto o sublime: belas obras de arte, e crimes hediondos.

E é aí que entra o Complexo de Édipo. O Édipo serve para barrar, interceptar e redirecionar as poderosas forças de amor e ódio que nos movimentam. O Complexo de Édipo atua como uma estrutura de interdição que nos coloca a todos na mesma condição, pela nossa incompletude e mortalidade. É no reconhecimento dos limites onde podemos ampliar nossos horizontes incorporando em nós, na nossa cidade, e no mundo, o(s) excluído(s). Da reciclagem do lixo às políticas de reflorestamento e à criação de condições para a geração de trabalho e renda, trata-se sempre da reinserção da humanidade em nós mediante o reconhecimento do outro. O meio ambiente tem que ser humano para o ser humano, e a complexidade humana deve conter todos os complexos: o de Édipo e o de Manguinhos.”

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