Elevador

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Entro no elevador. O vizinho do oitavo estava vindo atrás , mas finjo que não vi e não espero. Feio.
Vai dizer que nunca fez ?

(Não precisava ser assim. Mas elevador é sempre um constragimento e tentativas de diálogos em torno dos mesmos temas e isso faz parte. O tempo – tá calor, parece que vai chover, tá frio, tá abafado, diz que vem frente fria. Comentamos as previsões metereológicas sabendo o quanto isso é ridículo. Outro bom tema para elevador é a o dia da semana. Segunda-feira, ai meu deus, vai começar tudo de novo. Ou então, a sexta-feira, como é bom que chegou. É um assunto bom – principalmente se você mora em um andar, assim, do quinto pra cima – porque você pode logo emendar no papo do tempo. É sexta-feira, será que vai dar praia? Tá frio, tá abafado, diz que vem frente fria.  Para morar do oitavo em diante é recomendável que você tenha um bom traquejo social. Ou seja metereologista profissional.

Longe de casa tudo é diferente, como é bom. Nos elevadores desses prédios cheios de consultórios de dentistas, o ascensorista puxa um samba na caixa de fósforo e você fala até mesmo do seu problema de relacionamento –  “ele disse até que me amava!”. Tipo uma novela – “mas desapareceu faz três semanas!”.  Ele poderá acompanhar em capítulos até que o tratamento do canal acabe.)

O fato é que o vizinho consegue alcançar o elevador. Aperta o botão justamente quando a porta já estava quase inteiramente fechada. E ele sabe que eu sei que ele fez isso de propósito, uma vingança pela minha falta de delicadeza que eu sei que ele sabe. Um boa noite seco. Preferimos subir em silêncio, olhando para a porta. Constrangimento e um pensamento compartilhado: o cálculo interno da passagem dos andares. Faltam apenas seis ou sete para aquilo tudo terminar. Só que, dessa vez, o elevador continua subindo. Subindo. Subindo. Mas agora, ficou chato retroceder. De uma hora para outra ser simpático e puxar um papo. Não podemos olhar nos olhos. Nem falar sobre o tempo. Sobre a felicidade de ser sexta-feira. Sobre o estranho fato do elevador subir, subir e não chegar a lugar nenhum.

É um elevador infinito.
Continuaremos subindo em silêncio, olhando para a porta.
Para sempre.