Redes

Afonso finalmente tomou coragem e foi atualizar o seu perfil. A Ruth dizia que era o Facebook do trabalho e que para ele ia ser muito bom. A Ruth era sua amiga da firma e trabalhava no RH. Afonso estava em uma nova fase da vida, em busca de desafios. Um jeito bonito de falar que ele tinha sido demitido. A Ruth sempre dava dicas ótimas.
– Quando for procurar emprego, não diz que está desempregado!
– E digo que estou fazendo o que?
– Desenvolvendo projetos.
– Projeto de que?
– Ué, você não é jornalista? Diz que é o projeto de… um jornal.

Dois meses depois ele ainda não tinha conseguido nada. Ninguém ligou. Mas ele entrou lá no Facebook do trabalho e tinha umas 939 solicitações de contato, uma gente que ele não conhecia, pessoas que ocupavam cargos subalternos e também estavam em busca de desafios. Elas acham que achavam que Afonso podia ser um ótimo contato com seu projeto de um novo jornal. Foi crescendo nele um orgulho. Um orgulho daquele novo Afonso que tinha até noções de alemão.

– Melhor não botar isso, Ruth!
– Mas você não frequentou um curso?
– Saí depois da terceira aula.
– Diz alguma coisa aí, que você aprendeu.
– Guten Morgen, mein Name is Afonso.
– Noções!

A Helena, sua ex-colega de faculdade gostosa – mandou um email. “Também estou desenvolvendo projetos, kkkkkkkkkkk”. Helena, ela sempre foi meio piranha.

– É preciso fazer network – dizia a Ruth, que agora estava fazendo um curso de pós depois do serviço. Ela dizia que executivos de todo o mundo estavam no Facebook do trabalho tentando descobrir novos talentos. Um dia apareceu um contato. Uma empresa da Alemanha com nova sede no Brasil procurando jornalistas que falassem alemão. Afonso ficou nervoso. Apagou seu perfil e nunca mais apareceu por ali. Mudou de ramo e hoje revende redes do seu primo do Ceará.