Atrás das cortinas

Antigamente era assim: você queria uma coisa e tinha que ir lá na loja. E depois na outra. E na outra, na outra, na outra. Aí, depois de passar um dia caminhando suada, você finalmente tomava uma decisão e voltava para a loja escolhida. E comprava. Dava um trabalho enorme. Aí veio o processo civilizatório e criou os shoppings. Basicamente, continuou a mesma coisa, mas com a diferença de que você ficava andando em círculos e tinha ar condicionado. Mas aí o processo civilizatório veio de novo. E hoje, você só precisa apertar uns botões e um dia toca a campainha e tem uma pessoa na porta da sua casa com um sofá. Com uma geladeira. Com um livro. Com sementes dos Andes que emagrecem. Obrigada, processo civilizatório.

Os problemas são os anúncios. Os anúncios que começam a te perseguir. E os algoritmos. Se eles descobrem que você procurou por uma fruteira, você estará condenado pelo resto de sua vida. Condenado a ser uma pessoa em busca de uma fruteira.
Não importa o que você faça. Não importa que você esteja lendo um artigo sobre a pós-modernidade emancipada da falsa consciência produto da secularização. Vão te oferecer uma fruteira. Não importa que você esteja assistindo um clipe de uma banda eletrônica-folk que vive numa caverna na Nova Zelândia influenciada pelo estilo afro-peruano. Vão te oferecer uma fruteira. Não importa que você esteja só em busca de algo simplório e baixo, vasculhar a vida dos outros na rede social. Vão te oferecer uma fruteira. Fruteira fruteira fruteira. Um ótimo investimento para organizar as frutas em sua casa. Maçã, mamão, melão vão às ruas e exigem fruteira. Fruteira.

Dizem que os algoritmos vivem no sótão da sua casa vendo tudo que você faz. Se não tiver sótão, ficam no porão. Mas como hoje em dia todo mundo só vive em apartamento – que não tem sotão, nem porão, um sinal de franca decadência do processo civilizatório – os algoritmos costumam se esconder atrás das cortinas mesmo. É de lá que observam todos os nossos movimentos.

Pôxa, é que eu gostava quando era variado. Um dia estavam te oferecendo o travesseiro da Nasa e, no outro, salgadinhos em forma de panda sabor churrasco americano. Era uma época parecia que eu tinha muitos motivos para ser feliz.

Agora, só uma fruteira preencherá este enorme vazio da existência.