Flashdance

Quando vocês vão embora cuidar da suas vidas, a gente finge que vai cuidar das nossas também.
Não é verdade.

Quando vocês vão embora cuidar da vida, a gente fica na sala dançando de calcinha. Uma coisa assim meio jazz. Meio fiz-balé-moderno-aos-15. Meio assim sempre-sonhei-ser-chacrete. Um pás de bourré, joga o cabelão para trás, de calcinha e camiseta, meia não que no chão da sala escorrega. Uma coisa Índia Potira, a chacrete que caiu na contravenção.

É isso que a gente fica fazendo quando vocês vão embora cuidar da vida. Quando vocês vão embora cuidar da vida a gente brinca de dançarina de boate da Prado Junior. Depois faz um Lago dos Cisnes rápido e dubla a Shakira. Grand Battement, estica essa perna menina, todas as aulas de balé clássico que fizemos na infância, a mãe levando a gente pela mão para a primeira lição, malha preta e meia cor-de-rosa, professora tocando piano, o coração acelerado e o medo. Depois rebola até o chão. Fecha a cortina que aquele vizinho da frente é voyeur.

E aquela gotinha de suor começa a escorrer pelo caminhozinho que a gente tem nas costas e que vai dar bem ali debaixo das nossas calcinhas. Aí a gente coloca uma roupa, deixa o dinheiro da diarista, bota o jornal para dentro e sai. Enquanto vocês estão por aí querendo conquistar o mundo, 24 territórios, a Oceania, a África e todas as outras moças.

É isso que a gente quer.
E, às vezes, um Fred Astaire.

Publicado em 02Neurônio, 2007