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Eles tinham se conhecido em um almoço de aniversário de um colega. A festa rolou até o fim da noite e, como moravam perto, na volta dividiram o táxi. Papo vai, papo vem, concluíram que tinham muitos conhecidos em comum. Como, até então, não eram amigos? Trocaram telefones. Ficaram de se falar.

Existe um abismo profundo que separa “ficar de se falar” de qualquer coisa que se passe no mundo real. Ela pensava nisso enquanto caminhava pelo bairro e, passando pela casa do novo “amigo”, notou a porta entreaberta. E entrou. Por um minuto ficou ali parada, olhando para a decoração, os porta-retratos, a correspondência em cima da mesa. Na estante, os álbuns de fotografia. Não faria mal dar uma espiada.

Ele em uma casa de montanha sorrindo com uma mulher loira de casaco de tricô. O verão passado na praia com camarão frito. De terno em um casamento com um casal de idade. Ele a loira em Buenos Aires. Uma paisagem bonita com um vaca pastando. Uma foto desfocada com uma anotação: “noite incrível”. Só quando estava amanhecendo foi embora.

Na noite seguinte, voltou. E voltou, voltou, voltou. Passava horas olhando os álbuns. Com a mulher loira de novo, os dois pareciam bêbados e felizes. Uma fotografia em preto e branco da avó. Ele em um escritório com a gravata amarrada na testa e um bolo de aniversário de padaria ao lado da impressora. Em um lancha com uma morena ao fundo segurando um drinque. Logo, a obsessão passou a lhe tomar as tardes. Leu todos os seus diários. Ouviu todos os seus discos. Descobriu tudo o que ele havia feito nos últimos três anos. Intimidade. Falta de controle.

Nos últimos tempos, por conta do vício, tinha começado a faltar o trabalho. O chefe, com a voz embargada, a demitiu pelo telefone. Os mais chegados tentam – insistentemente – fazer algum tipo de contato. Mas ela raramente está em casa. Passa as tardes em apartamentos de estranhos, vasculhando. Nesta semana, por exemplo, foi no da mulher loira de casaco de tricô. Pelo que ela pode averiguar, agora ela está dando um tempo na Bahia em uma comunidade que planta orgânicos.

Nunca mais viveu sua própria vida.