Me atraso porque mereço

atraso

A vida é uma pequena ilha de coisas boas. Cercada de horários por todos os lados. Datas de entrega. Minutos, segundos, horas e a possibilidade diária de se atrasar para um compromisso. E compromissos estão divididos em duas categorias: os amorosos e todo o resto.

Para os compromissos amorosos, consigo ter uma pontualidade tão britânica capaz de me dar uma comenda do Palácio de Buckingham. Se eu chego atrasada (um tantinho de nada) é porque quero. Não para o que o outro fique esperando, isso só serve para as noivas – uma licença poética bonita – e para as sonsas. Se atraso num compromisso amoroso é apenas para aproveitar um pouco mais daquela taquicardia boa, daquela sensação de “me acode que eu vou ter um troço”. (A sensação de “me acode que eu vou ter um troço” também está dividida em categorias, neste caso três: a amorosa, a dos ataques de pânico e a dos troços propriamente ditos. Isso fica pra depois.)

E por que não atraso? Simplesmente porque eu estava esperando aquele compromisso amoroso desde sempre, desde que nasci em Minas Gerais nos anos 70. Durante os últimos tempos, tudo o que fiz foi dar um tempo. Caminhar até a galeria para fazer uma aposta na lotérica, ler os classificados para ver se vendem algo que não preciso, alimentar pombos na praça. Estava fazendo hora até que a boa hora chegasse. “Vem logo”. “Sim, lindo, chego em cinco!”

No caso dos compromissos “todo o resto”, é justamente ao contrário. Sempre atraso. E por que? Atraso porque mereço. Mereço ouvir um disco de canções incríveis e depois ouvir de novo e depois repetir. Mereço brincar de videoclipe imitando a Beyoncé. Mereço dublar a Amy e a Nina. Mereço fingir que sou a Clara Nunes. Mereço deitar no chão e pensar loucuras. Mereço fazer loucuras. Mereço reler correspondências românticas. Mereço clicar em vídeos de conteúdo impróprio e espalhar vírus pelas redes sociais. Mereço ler aquela coisa linda que eu já li tantas vezes mas sempre choro, aquela coisa que eu queria ter escrito mas não escrevi, mas pelo menos eu posso ler. Mereço até ter um delírio de ruína e cair na cama chorando por alguma coisa que não me lembro direito sobre o que era preciso falar disso na terapia. Mereço travar uma luta inglória pela sobrevivência da raposinha do Ártico. Mereço planejar a revolução. Ou, se não der, planejar uma viagem imaginária para algum lugar distante com bichos estranhos. Mereço me vingar, ainda que seja uma falsa vingança, daquele lance de mais valia. Mereço tudo e, por isso, atraso.

E vou sempre atrasar. Nos minutos do atraso é que está a vida.

Foto: Volkan Olmez