bora

Bora?

Eu abri a porta e ele estava lá: Fidípides, ele mesmo que, depois de correr 42 quilômetros, me entregou uma mensagem, e era sua, uma coisa linda, escrita de próprio punho, era você me convidando para sair. E enquanto eu lia as mais doces palavras,  exausto, ele se deitou no chão da sala e morreu.

Não, não  foi bem assim. Foram apenas quatro letrinhas lançadas na nossa troca de mensagens, B, O, R, A, BORA. Não tinha ponto de exclamação. Também não tinha interrogação. Não era nem um “bora comigo?”. Mas na hora achei até lindo. Bo-ra. Bora. Fiquei olhando para o Bora naquele fim de noite, ele me deu uma piscadinha. Acabou que dormirmos de conchinha. Coisa melhor do mundo, eu e o Bora, agarradinhos.

No dia seguinte acordei e o Bora ainda estava lá, na minha cama. Eu fiz café, tapioquinha, mas logo começamos a nos desentender. Bora o que, cara pálida?  Bora é a abreviação de “embora”, que é abreviação de “vamos embora”, que é abreviação de “vamos embora, eu e você conquistar o mundo, minha nega, mesmo que seja só hoje”. Ou não? Bora é um “tanto fez, tanto faz.” “Eu tô indo, se quiser vem, se não quiser amém”. “Eu estou indo e a rua é pública, você pode ir também.” Tivemos uma DR. Já contei a história de um pombo-correio que foi solto em Hokkaido, uma ilha no norte do Japão? Ele se perdeu em uma tempestade e foi parar no meio do oceano. Mesmo assim, atravessou sete mil quilômetros até conseguir pousar, por engano, no Canadá. A vida só vale desse jeito, com essa persistência toda, lágrimas de sangue e tragédia. “Voar o mundo se preciso for”, que nem na música. E ele, um Bora, era um pouco mais do que um nada! O Bora falou “que isso, bora lá”. Aí tocou a campainha. Era a Sra. M – a terapeuta – que perguntou se a tapioca dela podia ser com coco, e disse que eu estava sendo novamente ridícula, que bora é bora e um homem é um homem, e o homem é simples, o homem é binário e a mulher é louca. Então eu e o Bora fizemos as pazes, ou nem isso, mas é certo que fomos para a cama no meio da tarde.

E a noite vem chegando, vem chegando a hora do nosso não-compromisso, do nosso pseudo-encontro, do nosso cinema com pipoca. E o Bora ainda fazendo a esfinge: “Decifra-me ou te devoro”. E eu vou lá e teclo de volta: B-O-R-A-?”

Entre te decifrar e você me devorar, fico com a segunda, sempre. Me chama que eu vou.

Foto: Volkan Olmez