Enquanto isso, no Palácio da Alvorada em Jesus…

Estamos num futuro não muito distante. O Brasil não é mais um estado laico. Com exceção dele, o Verdadeiro Credo, todas as outras religiões foram banidas e passaram para a clandestinidade. Ateus e agnósticos são perseguidos. Pela nova constituição, o único espaço reservado à livre manifestação da fé é a rede social. Lá, os resignados expressam sua indignação com memes e gifs animados. Brasília foi totalmente reconstruída por causa daquele arquiteto ateu.

O encontro emergencial acontece no Palácio da Alvorada em Jesus. Estão reunidos representantes da Igreja Bambolês Abençoados, Pássaros de Cristo, Igreja Cristo é Fera, Igreja Evangélica dos Anjos Loucos e a Igreja Cruzada com o Pastor Waldir Romero, a Sumidade. Querem a cabeça do Ministro das Cidades, que também foi convocado. Nos bastidores, a conversa é que ele, que jura ser seguidor do Grande Credo, teria sido visto arriando um despacho durante a madrugada. Oficialmente, a pauta é outra.

O Pastor Waldir Romero, a Sumidade, pede a palavra.

– O problema é São Paulo.
– A água? Os sem teto? A ciclovia?
– Não, São Paulo. A cidade propriamente dita.
– O que é que tem?
– Veja bem, não acreditamos em santos. Jesus é nosso único mediador. Não pode ter uma cidade com nome de santo.
– Entendi. Mas olha, é só um nome. Na verdade, ninguém relaciona o nome da cidade com o Paulo, o santo. Nem sei quem era esse cara. Se você me perguntar, por exemplo, qual foi o milagre do Paulo, eu não sei. Se você me perguntar qual foi o milagre do Francisco, eu sei mas…
– Qual foi o milagre do Francisco?
– Ele andava com bichinhos ao redor.
– Isso é milagre?
– Sei lá, é que o pessoal gosta muito deste lance de pet. Talvez tenha sido um exagero dos católicos. Vocês sabem como eles são. Só estou dizendo que o Paulo, ninguém liga o nome à pessoa. Muito menos o santo à cidade.
– Mas toda vez que alguém diz São Paulo está fazendo uma espécie de adoração. Isso não pode. Você sabe quais são as regras.
– Olha só, eu até concordei quando vocês proibiram o uso de jalecos brancos em todos os hospitais e também estou trabalhando no projeto de substituir encruzilhadas de todo o Brasil por rotatórias…
– Está mesmo?

O Ministro das Cidades lembrou do ebó. Sentiu que a barra ia pesar para o seu lado. Resolveu logo propor uma solução.

– E se a gente mudasse o nome da cidade? Poderia ser só Paulo. Porque realmente, ele não era santo e pronto. Não se fala mais nisso.
– Não teria uma outra opção mais criativa, com mais apelo? Afinal, se trata da maior cidade do país.

Fizeram um longa discussão em busca de outro nome. “Terra do Progresso”, “Terra da Garoa” mas, ao final, venceu “Lugar animado e cinza que passa o Rio Tietê no meio”. Mas será que ia colar? O Pastor da Igreja Bambolês Abençoados veio com uma proposta ainda mais ousada. E se, simplesmente, jogassem uma bomba? Aí não ia ter cidade e nem nome.

– Mas como vamos evacuar a população ?  E os paulistas, para onde iriam? – perguntou o Ministro das Cidades.
– Isso não ia ter, evacuação. Ia ser com tudo mundo dentro. Porque se eles fossem para outros lugares, o problema ia continuar. Ia sempre ter aquela conversa: “estou tendo que hospedar meus parentes de São Paulo”. E aí ia dar na mesma. São Paulo, adoração, somos contra santos.
– Mas e São Bernardo? Santo André? Santa Maria? Santo Antônio de Pádua. Tenho parentes em Vitória de Santo Antão!
– Tudo isso fica como uma segunda etapa, mas já pode orçar também.

O Ministro das Cidades se levanta, manda todas a merda, pede demissão e sai da sala. O conselho se entreolha vitorioso. Muita ousadia arriar despacho em encruzilhada numa cidade que nem esquina tem direito.