O encontro da Mulher Sonsinha com Deus

ceu

Ela queria muito aquele cara, muito mesmo, coisa de louco. Mas tinha como regra de vida sempre se fazer de difícil. Era seu artifício, dizia que só assim ele ia ficar na dela,  o lance era prolongar o desejo ao máximo. O desejo dele, no caso.  Os homens gostavam disso, garantia, e ainda citava um Freud de mentira (jamais tinha lido!).  Sim, ela era uma sonsinha.  Naquela noite, encontrou seu príncipe encantando,  que chegou em um cavalo branco imaginário.  Mas ela fez que não, fingiu que não, foi um tal de não prá cá e não pra lá, sobre amanhã ainda nem pensei. E  quando estava indo embora atravessando a rua, veio o truque final: a olhadinha para trás. Vocês sabem, né?  Aquela olhadinha “eu sei que você quer e eu também quero mas … me assista ir embora”. No que ela jogou o cabelo e foi virando o rosto cheio de BB cream, pronto.  Um carro pegou a coitada. Uma tristeza, gente.

A Mulher Sonsinha acorda nas portas do céu. E é aí que  vem a surpresa. Deus é mulher. E  uma mulher e tanto, uma mulher fodona, sem paranoia besta, uma mulher cheia de desejos, a mulher que todas nós queremos ser um dia. Deus não fica pensando demais, Deus não faz a louca, não fica cheia das autocríticas. Porra, Deus, você é demais, mulher. Também, sendo  Deus fica fácil. Além de ser uma espécie de Super-Heroína, Deus – que criou o mundo inteiro porque antes nada havia- não tem mãe, nunca teve, nem terá. Assim, até eu, né querida, quer dizer, me desculpe a intimidade, até eu, Deus. Quer dizer, Deusa.

E tem mais um detalhe: ao contrário da Mulher Sonsinha, que está vestida com um camisolão branco de filme espírita, Deus está pelada.
Absolutamente, totalmente, maravilhosamente nua.
Fim.