Esconde-esconde

esconder

Tentei ver por onde você andava dentro de mim. Eu sabia que tinha escondido, escondido em algum lugar bem escondido para que ficasse difícil de achar. Era um cantinho ali disfarçado e eu ainda fui colocando um bando de coisa por cima, uma roupas velhas para doar para o abrigo, todas as minhas tarefas de trabalho, os papéis de rascunho, meus rabiscos, as minhas quatrocentos mil e setecentas obrigações destas últimas semanas. Joguei por cima também umas alegrias, minhas músicas preferidas, uns discursos do Mujica, o resto de um chocolate e uma pilha de contas de telefone, atas da reunião de condomínio, extratos bancários que a gente nunca lê. É possível perder tudo numa pilha destas. Eu pensava. Sei não porque resolvi procurar na noite de ontem. Olha só que coisa, eu sabia exatamente onde te achar. Como se eu fosse um cão farejador destes que mostram nos programas de TV. Te encontrei ali perto do fígado. Jogava cartas com a tristeza, o desejo e a indiferença. Não deu tempo de ver quem estava blefando.

Próxima vez:  esconder direito.

Foto: Samuel Zeller