Oliver Sacks, obrigada, querido

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Meu querido Oliver,

O dia mal começou e eu já estou chorando. Não, você não pegou a gente desprevenido, sabíamos que essa hora chegaria logo. Só estávamos fingindo que não. Só fingindo que você estaria sempre por aqui, sendo amoroso com a gente, a gente que frequenta os consultórios neurológicos. Quantas vezes não peguei um livro seu e pensei: será que desta vez o Oliver vai falar de mim?

Todo mundo é diferente, tá certo. Tem gente que tem úlcera, tem gente que vê borrado. Todo mundo é um pouco igual, também, nascemos e vamos morrer. Quando fecha a conta e passa a régua, só estamos aqui fazendo uns lances. Tem os que mudam o mundo, mas a maioria de nós está aqui só fazendo uns lances.

Todo mundo é diferente, tá certo. Mas quem já passou horas e horas em salas frias de exames neurológicos sabe como ser diferente da cabeça dói. Nem mais, nem menos, apenas muito. A moça perguntando se você lavou seu cabelo com sabão de coco, puxando algum assunto para disfarçar,  aqueles fios sendo colocados na sua cabeça com uma pasta grudenta e você, em silêncio, pedindo para que seus neurônios fiquem quietos. Só por um instante. Só desta vez. Cooperem, garotos. Vamos enganar a medicina. Mas não, eles estão sempre fazendo bagunça.

E você, querido Oliver, foi aquele cara que olhou para a nossa bagunça e ao invés de gritar “arrumem logo tudo isso!!!!!”, apenas riu. E disse assim: “que bela bagunça, hein!”
Por isso, meu eterno amor e muito, muito obrigada!
Seguimos sem você, prometemos ficar bem.

* Jô Hallack tem um EEG do tipo alfa irregular com paroxismos irritativos intercríticos, um jeito complicado e disfarçado de dizer epilepsia.

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