Caronas

carona

Sempre tive um pouco medo de pegar carona, quando eu era pirralha rolava um filme em que o Rutger Hauer era um lourão que matava todos os motoristas. Um clássico, “A morte pede carona”, exemplo da educação pelo terror. Mas, com 17 anos, entrei na faculdade e, no campus da Praia Vermelha,  tinha um ponto de carona localizado estrategicamente em frente ao quebra-molas na porta da ECO.  Aí comecei a adorar este troço, inclusive pegava caronas até para lugares que não estava indo porque, quando você tem 17 anos, é assim:  você entra em um buggy  de um cara maluco que está indo para Copacabana só para andar no buggy  de um cara maluco até Copacabana e depois pegar um ônibus para voltar para casa (lembra, Nina?). Aí fui me especializando, pegava caronas bem incertas, tipo porta do Circo Voador, ei estranho me dá aí uma carona, porque quando você tem 17 anos, é assim: você quer estar sempre no limite de se fuder mas, caso sobreviva, terá uma boa história.

Alguns bons anos depois, na porta do Jive (que época!), eu peguei uma carona inesquecível com o Alberto Marsicano, aquela lenda da música. Na época eu não saiba que ele era aquela lenda da música, nem sabia o nome dele, só que era um cara figura que meus amigos idolatravam. Até que ele começou a fazer uns caminhos bem loucos (não era caminhos bem loucos, era só São Paulo mesmo) e eu, a pirar, como tinha sido idiota em entrar naquele carro, que estúpida, será que eu me jogo do carro ou o que, fui pirando, pirando, pirando, até ele me deixar gentilmente na porta de casa. Mas aí o mundo piorou e a carona saiu de moda. E o inusitado também. Mas como o inusitado é bom! No ano passado, primeiro jogo da Copa, dei carona (de táxi) para duas freiras, mas o táxi quebrou, saltei com as freiras e a mala das freiras, tive que pegar o outro táxi, Brasil quase em campo mas, no fim de tudo, tava lá a boa história e elas ainda prometeram fazer várias preces!

Neste domingo, voltei para o mundo das caronas com estranhos depois de entrar num grupo do Facebook, o “Caronas JF-Rio/Rio-JF”. JF é Juiz de Fora, Rio é o Rio mesmo. É assim: você vai lá e diz se está precisando ou oferecendo uma carona e, quando menos espera, está na BR-040 com dois estranhos em um carro. A vantagem é que custa mais barato – R$ 35 contra os R$ 50 e pouco do ônibus. E, em geral, você embarca e desembarca mais perto – no caso, fui pega na porta da casa da minha avó e saltei a dois quarteirões da minha. A desvantagem é o filme do Rutger Hauer que de vez em quando passa na sua cabeça.

Sem discussões sobre a nova (velha) forma de economia (por motivos de: preguiça), é um puro exercício de empatia (e de confiança, um troço vintage). Duas horas e meia tendo que desenrolar assuntos com duas pessoas que você acabou de conhecer, sendo que uma delas é um paleontólogo que reconhece moedas de um real raras, habilidade que foi comprovada no pedágio. Claro, tem aqueles momentos  “ai meu deus”, como quando alguém pronuncia “Fernando Henrique Cardoso”.  Você teme pelo pior. Mas aí dá pra mudar de assunto e perguntar para o paleontólogo o que ele faz quando volta de uma pesquisa de campo. Ele distribui os fósseis em vários departamentos, como o de Paleobotânica e o de Paleontologia. Aposto que vocês também não sabiam! E quando faltar conversa, é só torcer para o motorista escolher uma boa trilha sonora. Na minha viagem, foi ótima. Talvez seja sorte de principiante.