O comunicador do Aquaman em ‘O pequeno livro das memórias fantásticas’

comunicadorPor Rodrigo Brandão

Nos longínquos confins espaço-temporais de Osasco circa 1978, eu era um pequeno suburbano sendo iniciado num turbulento (e até hoje não concluído) processo de inserção social.

Cursava o pré-primário do Jardim Escola Sossego da Mamãe, onde rolava uma curtição num salão cheio de brinquedos velhos antes da aulinha. Quem quisesse podia levar os seus próprios de casa mas eu não fazia isso porque muitos moleques cresciam ozóio em qualquer porra da alheio. Na real, um dia (após ver um desenho dos Super Amigos no qual o Aquaman se comunicava com a Sala da Justiça com um walk-talk verde que eu pirei), eu resolvi inverter a parada. Achei um carrinho velho , sem rodas e verde, e tive plena certeza de duas coisas.

1 – Era o comunicador do Aquaman.
2 – Ninguém se ligava disso e portanto nada mais justo que alguém com noção real daquele artefato tomasse posse dele – e esse alguém era eu.

Não tive dúvida: saí da escola com o brinquedo na mão, na maior cara-de-pau. Na perua escolar que me levava de volta pra casa não pegou nada e pensei: “vitória!” Entrei em casa saltitante, uma adrenalina que não conhecia até então, e fui correndo brincar com meu Aparelho de Aquaman quando, sem mais nem menos, a casa caiu. Meu pai já tinha chegado do trabalho e não pode deixar de perceber aquele brinquedo que jamais havia comprado para mim. “Onde você arrumou isso, filho?”

Megaconstrangido, tive que explicar que tinha “trazido na escola”. Meu pai me apavorou animal, dizendo que aquilo era furto, que era crime, e se eu queria me tornar um marginal, ser perseguido pela polícia e “ver o Sol nascer quadrado”.

Tremendo nas bases, me esforcei muito para conseguir soltar um mínimo “não”.

Ele me intimou a devolver o aqua-fone sem que NINGUÉM mas NINGUÉM percebesse. Me sentindo o pior dos párias, fiz tudo na secreta máxima logo que cheguei no Sossego da Mamãe no dia seguinte, e senti um alívio maior do que eu.

Mas algum tempo depois, já estava metendo a mão no baleiro da mercearia da esquina sempre que o português virava pra pegar o troco das compras que eu tinha acabado de fazer para a minha mãe. Mas isso já é outra fita, deixa pra lá.


ro* “O comunicador do Aquaman” foi publicado em “O Pequeno Livro das Memórias Fantásticas. Volume I: contravenção”. Rodrigo Brandão (aka MC Gorila Urbano) faz parte da Third World Vision Tour, Mamelo Sound System, Zulumbi . “O Pequeno Livro … ” foi lançado “por volta” de 2000, um microzine no melhor estilo papel e xerox, e será relembrado por aqui.