Carta para um amor platônico

platonic

Você me pegou pela mão. E me levou, sim foi você que me levou, para os lugares mais lindos que dá pra imaginar. A gente dançou umas músicas ótimas, assim, no meio da sala, coisa de casal. Fez promessa e tudo, pacto de sangue, coração selvagem. Mas aí você foi lá e descobriu.

Sim, que você só existe dentro da minha cabeça. Fui eu que inventei você. Desculpa, foi sem querer. É que viver dá falta de ar e eu precisava amar outras pessoas, então veio você e me pegou pela mão. E eu fui junto. Não, nem tudo foi invenção. Do lado de fora existe esta tatuagem e este olhar que, um dia, cruzou com meu. Só isso. Todo o resto foi criação minha. Sou seu deus, seu destino, seu inferno.  Mas, olha, inventei também um mundo bom pra você. Aqui dentro a estática é pesada mas eu também penso um bando de coisa bonita. Tem muito passarinho e bicho, aqui tem maresia, onda carneirinho, fim de tarde gostoso. Tem a minha cama quente e eu, eu que moro na minha cabeça também quando não estou do lado de fora, neste negócio de mundo real.

Fica assim não, meu baby, meu amor platônico. Quem disse que o de fora é mais importante  que o de dentro? Quem garante, será que não é justamente ao contrário? Tá, eu entendo, isso te dói, chora. Chora que eu te dou meu colo e você me dá o seu pra que eu chore também as minhas dores. Coisa linda, cê sabe que eu nunca vou te deixar faltar nada. Xícara de açúcar ou cafuné. Uma viagem de barco. É só pedir que eu invento, sou boa nisso. Eu invento tudo pra você. Vem, lambe todos os meus machucados.

Ó, se eu demorar pra voltar, não assuste. Tô do lado de fora com as minhas outras coisas, sofrendo e amando amores reais. Ou só cuidando do almoço e dos tratos pequenos. Prometo te visitar sempre. E aí, vamos fazer as maiores juras. E foder a tarde inteira.