Roubar nega – ‘O pequeno livro das memórias fantásticas’

roubarnegaPor Xico Sá

Roubar manga de quintal é moleza. Roubar peixe de açude, como fazia com a minha cambada do Sítio das Cobras na Nação Cariri, ainda mais fácil ainda, embora valesse alguns respingos de tiro de sal no espinhaço (proustianos corações). Roubar livro na Livro 7, a maior livraria do Brasil que ficava no Recife das minhas boyzinhas morenas, fichinha, café pequeno, solavanco, um “fui” de nada.

Roubar cabrito? Arte de furtar galinhas? Fazíamos, meu velho, tira-gostos das primeiras cachaças juvenis. Tudo é fácil. Trem pagador inglês? Ih, mais fácil que acordar de pau duro. “O que é roubar um banco diante de fundá-lo”, pergunta também o menino Brecht, marxistas corações. É barbada subtrair o capital. Difícil mesmo, meus jovens, é roubar mulher. Não falo nem de coração de mulher. Nossa Senhora! Me refiro apenas ao bípede mais gostoso do planeta depois da perdiz e da nambu assadinha, ossos quebradiços na boca de cerveja.

E o roubo de mulheres me endoidavam a tenra infância aurora dos oito anos (que não volta nunca mais). Roubar mulher era tirar da casa dos pais, que rejeitavam um certo destemido genro. Por preconceito ou zelo excessivo com a bucetinha que alimentaram com tanto sacrifício. O cabra combinava com a nega na calada da noite. Mote e fuga. Dois dias depois voltava para casar. À força. Diante do descabaçamento cordial, nada mais restava aos velhos além do desgosto da sonsa. A notícia se espalhava nos nossos ouvidos. “Roubaram fulaninha de tal”…

xico* “Roubar nega” foi publicado em “O Pequeno Livro das Memórias Fantásticas. Volume I: contravenção”. Xico Sá é cronista, escritor, homem adorado e autor de “Big Jato”. “O Pequeno Livro … ” foi lançado “por volta” de 2000, um microzine no melhor estilo papel e xerox.

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