Onde as dores se encontram

amor

Ela era nova ali e, como sempre costumava acontecer, chegou com jeito de pouca conversa. Apenas ajeitou os óculos escuros e pediu:

– Um café.

Do outro canto do balcão, veio o comentário em voz baixa.

– Essa aí é Dor de Amor. Conheço de longe.

Quem disse foi a Marca de Vacina que, estando ali quase desde sempre, sabia reconhecer uma Dor só de olhar.

Era ali naquele canto da alma que todas elas se encontravam. Feridas, Machucados, Corações Partidos, Traumas, Melancolias. Até mesmo ela, uma simples Marca de Vacina. É porque todas as dores doem, embora algumas pareçam doer mais do que as outras.

Os Traumas, conhecidos por sua péssima memória, quando se lembravam dos seus esquecimentos só saíam de lá carregados. As Queimaduras, Cicatrizes e Ferimentos eram famosos pelo eterno ar de mistério. Nascidos de uma batalha heróica ou de um tombo estúpido? No benefício da dúvida estava o charme. As Tristezas Sem Explicação, velhas senhoras que jogavam buraco e bebiam até cair, moravam no fundo daquela alma antes mesmo que ela existisse. Cada Dor tinha lá sua mania.

– Me serve qualquer coisa forte. E uma ficha para a jukebox – pediu a moça.

– Tome a ficha, dona – disse o barman, enquanto preparava a especialidade da casa – uma dose de gim e outra de estricnina – ao mesmo tempo que olhava discretamente para a Marca de Vacina, que já comemorava a vitória do palpite. É que as Dores de Amor e os Corações Partidos – uns “exageradíssimos”, segundo os desalmados – tinham como característica maior o seu gosto musical imensamente triste.

Ela pôs pra tocar Johnny Cash e dançou, sozinha, no salão.
E todos choraram.