Cabo Polônio #memórias

Resolvi viajar para  Cabo Polônio. É uma praia do Uruguai, isolada por dunas, com uma comunidade hippie-anarquista e um farol. Durante o inverno, lá moram apenas 70 pessoas, mas no verão se transforma em um balneário. Em outubro, este lugar estranho com bichos e o mar pareceu um bom destino para alguém que estava precisando fugir do mundo.

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De Montevideo até lá, quase seis horas (* detalhes práticos no fim), incluindo um caminhão para atravessar as dunas e chegar neste lugarzinho perdido no tempo. Já reparou que hoje em dia tudo é meio Monalisa? Você já viu aquela imagem mil vezes até estar ali, de verdade. A gente não desbrava mais o mundo, a gente desbrava o Google Images. E eu cheguei em Cabo Polônio em um dia de sol e foi isso que eu vi.

Na pousada me avisaram que uma certa hora, um gerador seria ligado por um tempinho – “mas no quarto tem velas”. Porque não tem energia elétrica, aí é que está (mas pega celular, antes que perguntem). Deitei pra dar um relax e apaguei. Acordei uma e meia da manhã, no escuro. Pulei pela janela para a praia e um vento congelante soprou. Estava chovendo. Sim, eu poderia ter fugido do mundo indo para uma praia quente na Bahia mas fui – sozinha – para aquele lugar absolutamente melancólico. Parabéns para mim. Foi assim a minha primeira noite em Cabo Polônio: na cama, sem sono e com fome, eu chorei.

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Na chuvosa manhã seguinte, um litro de café para colocar tudo em seu lugar, uma gata pulou no meu colo e um uruguaio apareceu falando bem alto – para quem quisesse ouvir – que o problema do mundo eram os Estados Unidos. Mandei logo um “de acuerdo!” e comecei a me sentir em casa. No Cabo Polônio, a rua principal (e única) chama Avenida Pepe Mujica e, pra te dar um um ponto do referência, o sujeito diz “tá vendo aquela casa com uma bandeira da Palestina e outra do Peñarol?”. Pode parecer um lance meio folclórico – e sim, vendem colarzinhos hippies. Mas naquele momento em que falávamos mal das corporações, a Bahia imaginária começou a ficar pra trás.

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Além das tais famosas 70 pessoas que vivem por lá durante o inverno, a estimativa é que a comunidade seja de mil pessoas, que moram lá em alguma parte do ano, sem contar com os turistas. O que tem pra fazer? Nada. Cabo Polônio é ver o tempo passar e construir e reconstruir suas casas que estalam e racham quando a areia se move. Assistir a lua nascer vermelha no mar. Deitar na rede de cobertor e ficar vendo gaivotas. “Olha ali perto das dunas, um pequeno triângulo. É o telhado de uma casa que foi devorada pela areia! Vai lá”. E aproveitar e ficar pro pôr do sol. De onde você é? De onde você é? Tomar mate com os garotos da Patagônia. O barco de pesca volta, o menino que surfa vai. Os lobos marinhos nadam. Sentar em uma pedra e jurar que uma baleia franca vai passar, porque você tem mesmo muita sorte. Mas não. De onde você é? De onde você é? Uma coruja, um sapo microscópico (o Darwin, espécie endêmica da região), as teias de aranha delicadas espalhadas pela grama e vagalumes que piscam junto com o farol. Sair pra passear com um cachorro e, pela praia, tropeçar em animais mortos. Enfiar os pés na lama. Assistir a hora em que o farol acende e depois de novo e de novo. De onde você é? De onde você é? Lembrar que o mundo é hostil mas é também bonito.

Eu voltei do Cabo Polônio em um dia de sol (mas talvez ainda esteja por lá).

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Como chegar e onde ficar: a partir de Montevideo, ônibus para Valizas (Ruta 10) da rodoviária da Rutas del Sol. Demora cinco (yeah) horas, porque vai parando em diversas cidades mas é megatranquilo – a paisagem é linda e o ônibus tem wifi. A outra opção é alugar um carro – três hora e pouco – mas se você quiser ficar apenas em Cabo Polônio, ele ficará estacionado na entrada do parque. Pra quem vai de carro desde o Brasil, Polônio fica mais perto do Chuí do que de Montevideo. Você chega na entrada do Parque Nacional e pega um caminhão pau-de-arara que atravessara as dunas Tem vários hostels e pousadinhas – eu fiquei em uma deliciosa (porém não tão barata, La Perla del Cabo), mas tem para todos os bolsos. Dá também para alugar casas. Para comer, restaurantes e nos hostels, e também tem um armazém se você tiver alugado uma casa. Num google rápido dá para descobrir um pouco mais.
Luz elétrica. Não tem, mas alguns lugares têm geradores e, em alguns hostels, serviço de carregar celular durante todo o dia. Sim, celular (e internet) pega. Deixei o meu em modo avião (economizar bateria + me desligar) e quando ligavam o gerador na pousada (duas vezes ao dia) eu usava um pouquinho o wifi. Uma lanterninha é útil.
Verão. Parece que fica bem animado, com pessoas dançando na areia – segundo a foto que eu vi no Google Images, rs. E na alta temporada, existem passeios, cavalgadas etc. Se você for uma pessoa de muita sorte, pode ver o mar ficar azul fluorescente à noite, um fenômeno causado por um protozoário marinho. O céu em noites sem lua, dizem, é a coisa mais linda do mundo.