O equilíbrio cósmico das pendências

pendenciasTenho uma teoria de que cada pessoa vem ao mundo com um número de pendências pré-determinado. É um número aleatório – ou se você é religioso, talvez kármico –  um número só seu.  Seu e para sempre. O meu é algo  perto de  234. Eu vim e partirei deste planeta com 234 pendências. Na prática, isso significa que assim que eu vencer a procrastinação e resolver qualquer pendência, uma outra surgirá do além para ocupar este lugar vago e, assim, garantir o equilíbrio cósmico.

Quando eu digo pendências, falo dos problemas irritantemente cotidianos –  ficam fora desta conta as pendências amorosas e melancolias em geral.  São os entraves idiotas. Uma caixa-postal aberta e abandonada em um correio no Jardim Botânico. A torneira que está pingando. Uma dívida pequena, um dinheiro a receber menor ainda. Eu tenho 234 pendências, até que a morte nos separe.

A sabedoria da vida está, portanto, em conseguir trocar de pendências e se dar bem. Um jogo de cartas, um programa do Sílvio. Vejam só, este ano resolvi um problema do imposto de renda que me atormentava mas, assim que isso aconteceu,  meu tanque entupiu.  Uma sorte! Prefiro um tanque entupido do que receber, ao invés de um bilhete de amor, uma carta de uma delegada da Receita Federal. Não foi legal.  Passados dois meses, hoje, eu encontrei forças sobrenaturais e, apesar do profundo sofrimento e da dor no dedo, liguei para a Desentupidora Tic Tac. A Desentupidora Tic Tac tem quarenta anos na praça e Seu Alair, dono e desentupidor-chefe, se encontrava irritantemente eufórico.  Perguntou se eu estava animada para o Natal. Quando respondi que não, lembrou que bom mesmo era o Reveillon.  Simpaticamente de mau-humor (um estado de espírito borderliner), expliquei para o Seu Alair que odeio o Reveillon ainda mais. De nada adiantou. Seu Alair não se abateu e, com sua ultrajante felicidade, disse que a vida anda boa e os canos, entupindo como nunca!

O tanque agora vai bem, a água descendo com uma pressão que dá gosto. Mas veio aquela angústia que eu conheço: sei que, num prazo de 24 horas, uma outra pendência surgirá. Talvez tenha sido uma péssima troca, algo terrível pode vir por aí, um monstro japonês, um cartório na Pavuna. Mas aceitarei esta pendência, em paz e tranquilidade. Tudo precisa estar erradamente no seu lugar para que o mundo ainda exista. Eu confio no universo. E esqueço senhas.