Eu falto à academia. E me deixa

academ

Ainda estou tomando o café quando vem um telefonema. Ele diz que está sentindo a minha falta. O coração acelera. Mas, não, não é nada disso. É só o estagiário da academia dizendo que “verificou no sistema que eu não tenho ido, tá tudo bem?”. Sou simpática, apesar de não ser nem dez da manhã, o horário permitido para telefonar para alguém sem ser por motivo de morte de um ente. Sou simpática num gesto de solidariedade, não deve ser fácil o serviço do rapaz, ligar para as pessoas estranhas (somos muitas) que se matriculam para não ir. E, do outro lado, escutar sempre a mesma suave e deslavada mentira. “Vou voltar esta semana”.

Mas quando foi que nos roubaram o direito inalienável de PAGAR academia e NÃO IR, sem ter que dar explicações para o estagiário? Estou devendo? Estou sendo paga para malhar? (Não vou à academia faz tanto tempo que ainda uso gírias dos anos 80). Estou pagando a mensalidade com o suor dos outros? Não, não, não. Eu estou rasgando o meu próprio dinheiro, algo que sempre pensei ser assegurado. Está lá, no livro do Karl! “O modo de produção capitalista repousa no fato de que as condições materiais da produção encontram-se nas mãos dos que não trabalham, sob a forma de propriedade do capital e propriedade do solo, ao passo que a massa possui apenas a condição pessoal da produção — a força de trabalho. Mas se a massa quiser faltar à academia, a massa falta!”

Por isso, me deixem em paz! Não trabalho com culpa antes das dez (suave e deslavada mentira).