‘Mamãe’ e as nossas dores

Eu era pequena, mas ela pensava que eu era menor ainda.   Meu pai, então, teve uma ideia,  pediu que eu lesse o aviso da recepção e eu fui lá e li: “proibida a entrada de menores de cinco anos.” Aí a moça me deixou entrar.  Eu tinha seis e estava visitando a minha mãe no hospital.  Neste dia, ela passou bem mal. Eu me lembro, e me lembro também da minha avó levando a gente pra fora do quarto, nervosa,  me lembro da minha irmã perguntando se era grave,  me lembro de ter perguntado para a minha vó o que era “grave”.  Neste dia, minha mãe entrou em coma.

A partir daí, é um branco.
O meu cérebro, amoroso e gentil, simplesmente parou de registrar memórias.
Os acontecimentos só voltaram a ser gravados quando chegou a hora da gente se mudar para o Rio de Janeiro, me lembro da professora explicando na classe que eu não ia mais morar em Campinas, eu acho que o cérebro achou que ia ficar sem pé nem cabeça se não voltasse a gravar a partir dali, ia ficar tipo filme experimental. Então, eu já tinha sete anos, a minha mãe não tinha morrido, quer dizer, parece que ela morreu mas aí o meu pai assinou um papel para um lance arriscado e ela desmorreu.

Na semana passada, eu fui ver “Mamãe”, a peça do Álamo Facó – ele mesmo escreveu, é sobre a sua mãe que morreu cem dias depois de um diagnóstico de câncer. Foi lindo, mas doeu também, a minha dor esquecida.
Então fiquei pensando que a arte é este  jeito  bom da gente lidar com a dor, mas que a arte não transforma a dor, transforma apenas o  jeito da gente sentir a dor.
As nossas dores, sabe, elas estarão sempre com  a gente.
Nós somos as nossas dores.

Este mês, a minha mãe fez 72 anos. Fomos comer pastel no Bar Urca, que ela adora pastel, eu também, a gente acha que a vida sem pastel perde muito da graça.
Neste sábado e domingo, a peça tem as últimas apresentações no Rio, depois vai pra São Paulo. Seu eu fosse você, ia. E levava, junto, as suas dores.

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