Por um botão localizador em cada pequena coisa do mundo

Considero o telefone sem fio uma invenção incrível.  Não porque vem sem aquele fio chato que enrola ou porque dá pra falar com ele em qualquer lugar da casa. Pra mim, a melhor coisa de todas é o seu botão localizador, é só apertá-lo e o telefone apita e você descobre que ele estava escondido debaixo de cinco almofadas. Dentro do armário. Na sua bolsa. Que alegria!

Sempre achei, inclusive, que tudo na vida deveria ter o botão localizador,  a chave de casa,  minhas pequenas coisinhas, até mesmo  a cabeça e o coração.

Seria de uma utilidade maravilhosa,  pensem, para aqueles momentos em que os afazeres se acumulam e você não sabe por onde anda sua cabeça.  Prático, bastaria apertar o botão para descobrir onde ela estava, provavelmente em um lugar bem distante, uma ilha vulcânica onde tudo parece fazer mais sentido, outras vezes você encontraria sua cabeça nas caixas antigas que ficam na última prateleira da estante, junto com sua memórias de criança ou, então, a cabeça talvez tenha ido parar no mundo imaginário que caminha do lado do nosso, nesse mundo onde também moramos mas em uma outra vida .  Claro, continuaríamos perdendo a cabeça vez por outra, e tal. Mas seria mais fácil encontrá-la e consertar tudo.

No caso do coração,  também seria de grande valia esta nova invenção, porque tem vezes que ele some e você não sabe onde ele  se meteu. Com o botão localizador nada estaria resolvido – porque coisas do coração não são  da natureza de resolvências – mas a gente pelo menos ia descobrir onde ele foi parar, só a título de curiosidade mesmo.  Tem vezes que ele aparece em cada lugar tão louco, talvez eu tenha esquecido na sua casa ou, então, eu o encontraria atrás do piano de um apartamento que eu não frequento mais,  porra, coração, tu não aprende, e eu arrastaria de volta.  Não seriam poucas as vezes que o botão localizador ia achar o coração no reino do platonismo,  eu ia ter que pegar à força, passar um pito, eu falei pra você não andar com essa gente que, inclusive, olha, elas nem existem.

É isso.
Só pra dizer que o meu cartão de banco continua desaparecido.