O reino hipster do hortifruti

Era para ser só uma compra de lances pra faxina mas, no site do supermercado, apareceu o grande anúncio colorido. “Conheça a fruta do momento”. Letras garrafais. Climão. Avimaria, jamais pensei que tivesse que acompanhar as tendências no segmento das frutas. Mas me vi ali, nas portas do reino hipster do hortifruti.

Cliquei.

Pitaya, é ela, a fruta do momento, rosa choque escândalo, e continuei me inteirando, “é doce e tem baixo nível de calorias. Fonte de Vitamina C, rica em fibras e minerais, principalmente fósforo e cálcio. Possui quantidades significativas de antioxidantes, que previnem os radicais livres.” Saudades de quando uma fruta era uma fruta e tava mais que bom. Hoje elas vem até com bula. Certeza de que o mundo complicou.

Lembro de um dia,  hora da sobremesa.  Ele parece na sala de jantar com quatro kiwis em uma bandeja. Toda a mesa faz “óóóó”.  O pai vai logo avisando que não é pra acostumar. Só daquela vez, “só para experimentar”.  Cês num têm nostalgia de umas coisas loucas, quando a vida era meio ruim?  Kiwi era extravagância, o cinema nem tinha lugar marcado e quando abria a porta da sala todo mundo saia correndo como se fosse o apocalipse, era horrivelmente bom, sei lá. Eu tenho saudades daquele mundo mais impossível, em que eu sonharia a vida toda com uma pitaya porém jamais provaria. Ficaria querendo para sempre essa fruta exótica, e planejando uma viagem até um pequeno povoado da América Central, talvez nem tão naif, só comer uma pitaya em um mercado na Cidade do México, mas nunca chegaria lá. O desejo, o desejo. o desejo.

A pitaya foi entregue ontem aqui em casa junto com o sabão em pó e a água sanitária.
Tem gosto de melão. De melão, pense num desgosto.
Saudades, mundo impossível.