Por jô hallack

caótica, escritora, jornalista, roteirista, o outro blog é o defeito.com, rio de janeiro.

Onde as dores se encontram

Ela era nova ali e, como sempre costumava acontecer, chegou com jeito de pouca conversa. Apenas ajeitou os óculos escuros e pediu: – Um café. Do outro canto do balcão, veio o comentário em voz baixa. – Isso aí é amor. Conheço de longe. Quem disse foi a Marca de Vacina que, estando ali quase…

Quando era asa, voei

Quando era asa nadei. Na correnteza do vento. No chão, rainha é a areia. E os grãos que tudo devoram. Quando era asa, voei. Da sua mentira, cai.

nossas paranóias

que barulho é esse? são as nossas paranoias que acordaram com fome e estão devorando tudo da geladeira morderam até um pedaço do sofá e ainda por cima botaram a culpa no gato  

a situação

O encontro é para analisar a situação do país. Depois da fala de dois grandes nomes da esquerda, um intelectual fumante pede a palavra: – Estou aqui ouvindo e me veio uma dúvida paralisante. Breve pausa. – Me jogo desta janela ou daquela outra? Risos nervosos . Alguém intervém. – Que bom que é paralisante . Assim você não se joga de nenhuma delas. Um artista do outro lado da sala interrompe. – Jamais me jogarei. Tenho mais de oitenta anos. Sobrevivi à ditadura. Vou sobreviver agora também. E olha fiz de tudo pra sobreviver. Só não vendi maconha. Mais…

Eclipse

Parecia, assim, que era meio reveillon. O povo andando apressado pelo calçadão para ir pra Praia do Diabo ver o eclipse. Estranhei o interesse súbito por astronomia, depois pensei que era negócio de crise. Pelo menos eclipse é grátis. Mas a verdade é que carioca é animado mesmo. Adora um ajuntamento. Uma farofa. Amo muito. Parecia tanto reveillon que tinha até casal brigando. – Que que te custa ir lá dar uma olhadinha? A Pedra do Arpoador tava com lotação esgotada. Calçadão também. Mas na areia tinha espaço pra geral. E vendedor de caipirinha. Jogadores de frescobol fingindo que não…

Na muvuca

Na muvuca, no gargarejo, no aperto da multidão do lula livre. Ouvi assim. Um pedaço de conversa. – Qualé . Minha mãe fazia salgadinho pro Brizola . Rio, ti amu disgraça.

Destacado

Os monstros vieram se queixar

Os monstros vieram se queixar. Muito tempo sem sair de casa Até as traças estão numa boa,  gritaram. E comeram toda a biblioteca. Prometi, então, uma noite daquelas. Uma insônia daquelas. Uma nóia daquelas. Quem sabe assim eles ficam quietos. Quem sabe assim eles me esquecem.

Beijocas, não

“Então,  beijocas”. Fico olhando perplexa para aquela mensagem.. Beijocas. Beijocas. É, boy. Vou ter que sacar meu três oitão. Porra, beijocas não. Qualquer coisa, mas beijocas não. Beijocas é a covardia em letras miúdas no zap. Não tem nada mais broxante do que beijocas. Vindas da boca de um ex.  E essa  boca já fez…

Europa

Na lua o maior dos oceanos Pra fazer deus rir: planos O mundo salgado debaixo do gelo eu me perdi num cacho do seu cabelo Um labirinto Um caracol Eu sou liberdade Você meu anzol E rabisco com letras tortas Esse universo que inventei Cheio de estrelas mortas

os amores que aqui não estão

Para onde vão os amores que não mais estão? Se escondem pela casa,  metidos em frestas, junto com as traças, se alimentado dos meus próprios restos. Enquanto em durmo, eles se deitam ao meu lado e sussurram. Lembra como foi bom? Lembra com foi ruim? Chamei a dedetização.