diário monstros número 46292

os monstros me chamaram pra fazer um piquenique.

tinha bolo meio de festa eu perguntei o porquê. eles disseram que estavam comemorando a minha vida estar pior do que a sua.

nadamos na represa.
bife a milanesa frio no pão francês.
quando  foram no pedalinho, eu fugi.

abri a porta de casa, eles já estavam lá. são os túneis. que eles cavam.
fizemos pipoca, uma zebra fugindo do leão na tevê, eles perguntaram se eu ainda pensava em você. e eu respondi: coitada da zebra.

Amanhã é um dia triste

“No final tudo dá certo.”
Sempre detestei este tipo de consolo. A começar pelo óbvio: no final, morremos. Eu sei que isso é spoiler, um detalhe incômodo, mas é assim que é . No final, morremos.
Depois?  Talvez poeira cósmica. Andar pelas nuvens de camisolão . Voltar como bebê e recomeçar do zero.  Aí, amigos, é uma questão de crença. Mas, seja qual for a alternativa, essa não é a minha ideia de “dar certo”.  Duvido que seja a sua. Por isso, vamos ser sinceros uma vez na vida. No final, morremos. No final, tudo dá errado.

E o final, muchachos, é amanhã.
Amanhã é um dia triste.
Sem essa de panos quentes,  não cantarola “levanta e sacode a poeira”, faz favor, não diz que “a revolução é interior”, isso é mentira, te peço, não vem lembrar que a vida tem coisa boa,  o novo Woody Allen,  praia,  picadinho, cachoeira, amor, beijo no cangote, paçoca.

Tristeza não se afasta. Tristeza se respeita.
Amanhã é um dia triste pra caralho.

Antitutorial da vida

Não sei.
Marcenaria, tricô, quais são todos os países da Europa, japonês.
Minecraft, tocar violão, costurar um capuz de unicórnio ou panda.
Técnica contra assalto de um roubo de bolsa. Em dois golpes.
Olho gatinha com delineador. Falar “Rihanna” direito.
Me atrapalho.
Também.
Na diferença de quati para guaxinim.

Sei.
Receita de tiramisú.
Contar abismos.
Setecentos e vinte nove da última vez.

Captura de Tela 2016-07-16 às 14.07.00

uma frase boa

Uma frase boa veio me visitar. Uma frase boa, saca, dessas que explicariam tudo e eu, camisola, pijama, olhei pra ela e disse, que linda é tu, menina, perfeita. E eu, tua mãe, tua dona, gênia da lâmpada que te inventei.

Mas ele veio e falou, que nada, fica comigo, larga a gata, amanhã cê trata disso, vem e eu fui.

Hoje, passando o café, me lembro de quase tudo: de ter inventado uma frase boa e o sono me chamando e jurando que pela manhã ela ainda  estaria comigo. Da frase, lembro nada.
Nem sei se era de amor ou de guerra.
Só que explicaria tudo, o sentido do mundo, e coisa  e tal.

Por um botão localizador em cada pequena coisa do mundo

Considero o telefone sem fio uma invenção incrível.  Não porque vem sem aquele fio chato que enrola ou porque dá pra falar com ele em qualquer lugar da casa. Pra mim, a melhor coisa de todas é o seu botão localizador, é só apertá-lo e o telefone apita e você descobre que ele estava escondido debaixo de cinco almofadas. Dentro do armário. Na sua bolsa. Que alegria!

Sempre achei, inclusive, que tudo na vida deveria ter o botão localizador,  a chave de casa,  minhas pequenas coisinhas, até mesmo  a cabeça e o coração.

Seria de uma utilidade maravilhosa,  pensem, para aqueles momentos em que os afazeres se acumulam e você não sabe por onde anda sua cabeça.  Prático, bastaria apertar o botão para descobrir onde ela estava, provavelmente em um lugar bem distante, uma ilha vulcânica onde tudo parece fazer mais sentido, outras vezes você encontraria sua cabeça nas caixas antigas que ficam na última prateleira da estante, junto com sua memórias de criança ou, então, a cabeça talvez tenha ido parar no mundo imaginário que caminha do lado do nosso, nesse mundo onde também moramos mas em uma outra vida .  Claro, continuaríamos perdendo a cabeça vez por outra, e tal. Mas seria mais fácil encontrá-la e consertar tudo.

No caso do coração,  também seria de grande valia esta nova invenção, porque tem vezes que ele some e você não sabe onde ele  se meteu. Com o botão localizador nada estaria resolvido – porque coisas do coração não são  da natureza de resolvências – mas a gente pelo menos ia descobrir onde ele foi parar, só a título de curiosidade mesmo.  Tem vezes que ele aparece em cada lugar tão louco, talvez eu tenha esquecido na sua casa ou, então, eu o encontraria atrás do piano de um apartamento que eu não frequento mais,  porra, coração, tu não aprende, e eu arrastaria de volta.  Não seriam poucas as vezes que o botão localizador ia achar o coração no reino do platonismo,  eu ia ter que pegar à força, passar um pito, eu falei pra você não andar com essa gente que, inclusive, olha, elas nem existem.

É isso.
Só pra dizer que o meu cartão de banco continua desaparecido.

A fábula da mulher impossível

Em outras rodas, e pelas ruas, e pelas bocas, em velhas juras.
Em novas dores, com outros homens, em todas camas, e seus amores.
Nos mesmos erros, antigos trastes, em todas brasas, no carnaval.
Sempre nos bêbados, nos seus rascunhos, nos infelizes,  na solidão.
A mulher impossível está do outro lado da porta.
Esperando que você abra.

Fotos que não tirei

Será que o mundo já não tem fotos demais? E que o nosso olhar e nossa memória não bastam para retermos as imagens e, a partir daí, transformá-las?  Este é o meu novo projeto que começa com um canal no Instagram.

fotos1

Arquivado em:pop

‘Mamãe’ e as nossas dores

Eu era pequena, mas ela pensava que eu era menor ainda.   Meu pai, então, teve uma ideia,  pediu que eu lesse o aviso da recepção e eu fui lá e li: “proibida a entrada de menores de cinco anos.” Aí a moça me deixou entrar.  Eu tinha seis e estava visitando a minha mãe no hospital.  Neste dia, ela passou bem mal. Eu me lembro, e me lembro também da minha avó levando a gente pra fora do quarto, nervosa,  me lembro da minha irmã perguntando se era grave,  me lembro de ter perguntado para a minha vó o que era “grave”.  Neste dia, minha mãe entrou em coma.

A partir daí, é um branco.
O meu cérebro, amoroso e gentil, simplesmente parou de registrar memórias.
Os acontecimentos só voltaram a ser gravados quando chegou a hora da gente se mudar para o Rio de Janeiro, me lembro da professora explicando na classe que eu não ia mais morar em Campinas, eu acho que o cérebro achou que ia ficar sem pé nem cabeça se não voltasse a gravar a partir dali, ia ficar tipo filme experimental. Então, eu já tinha sete anos, a minha mãe não tinha morrido, quer dizer, parece que ela morreu mas aí o meu pai assinou um papel para um lance arriscado e ela desmorreu.

Na semana passada, eu fui ver “Mamãe”, a peça do Álamo Facó – ele mesmo escreveu, é sobre a sua mãe que morreu cem dias depois de um diagnóstico de câncer. Foi lindo, mas doeu também, a minha dor esquecida.
Então fiquei pensando que a arte é este  jeito  bom da gente lidar com a dor, mas que a arte não transforma a dor, transforma apenas o  jeito da gente sentir a dor.
As nossas dores, sabe, elas estarão sempre com  a gente.
Nós somos as nossas dores.

Este mês, a minha mãe fez 72 anos. Fomos comer pastel no Bar Urca, que ela adora pastel, eu também, a gente acha que a vida sem pastel perde muito da graça.
Neste sábado e domingo, a peça tem as últimas apresentações no Rio, depois vai pra São Paulo. Seu eu fosse você, ia. E levava, junto, as suas dores.

Arquivado em:pop

As queridas ficam

Dilma-1970-DEF

Que tem machismo, a gente já sabia.
E que a misoginia anda por aí de boas, pois é.
É tão escancarado, que um homem que bate em mulher vai se candidatar a prefeito e é isso.
Ontem foi um circo dos horrores, tá claro. Teve gente dedicando voto a torturador. E tudo. Conforme a votação avançava, avançava também a tentativa de humilhar e calar as mulheres que se posicionavam a favor da presidenta. Elas, principalmente elas. Com vaias. Com urros.
As mulheres.
Escrevo este texto aos prantos, sabe como é, a gente pode se emocionar pra valer, só os boys é que don’t cry. A gente é puro coração (e tudo mais). Mas é o seguinte.

TCHAU O CARALHO.
AS QUERIDAS FICAM.
SOMOS MUITAS E VAMOS BOTAR PRA FUDER.

familia

Ficou decidido assim

Ficou combinado assim.
Na impossibilidade de chegar a um acordo – aparentemente, o resultado da eleição não estava valendo! – todo o futuro da nação seria decidido em uma partida de queimada. Uma única partida, disputada por dois times, dois times de uma mesma família brasileira desta assim que nem a de todo mundo, um primo petralha, uma prima coxinha, um tio deixa-isso, enfim. Vocês sabem. A escolha foi feita através de um algoritmo que detectou o grupo de whatsapp com mais barracos em território brasileiro.  E  família escolhida ganhou um ano de compras de supermercado!

Eis que chega o domingo, o grande dia. O jogo será transmitido em rede nacional diretamente do quintal. Cabe à avó matriarca, já na cadeira de rodas e de camisolão, o apito. Todos os parentes reunidos, começa divisão de times. “Sou contra este Fla-Flu”, diz uma fulana, no que é seguida por vários isentões que também só querem ficar de fora, só olhando. “Tudo bem, mas mesmo assim tem que escolher um time pra ficar na reserva. Não tem jeito. É o futuro da pátria verde-amarela”, fala um tio mais velho, eleitor do Bolsonaro. Tensão. A matriarca finge que não é com ela e desliga o aparelho de surdez. Para surpresa de todos , o Tiozão é apoiado por Lula, seu sobrinho que, na verdade, na verdade, se chama Reginaldo “mas a partir de hoje só atendo por Lula”. “No muro não vai dar”, diz o sobrinho.  Finalmente eles concordaram em alguma coisa! Esperança!

Mas, então, acontece o inesperado. Os isentões surtam e partem pra cima de todo mundo, distribuindo sopapos.
Aí não tem mais jeito.
Fim.

Quero flores. E o bagulho todo

Quero flores. Sim, sim, sim, quero flores.
Quero rosas, lírios, orquídeas. Quero astromélias vermelhas e flores de pêssego quando chegar a temporada.
Quero, quero, quero flores.
E O BAGULHO TODO!

Cês sabem, é o salário, os direitos, a louça lavada e a mesma posta. Quero entrar no táxi de boa e flores. Quero a legalização do aborto e flores. Pode ser até aquela violetinha barata, tá lindo. O respeito, e flores. A escuta, e flores. Tô com preguiça de entrar em detalhes. E flores.
Flores, flores, flores!
E que Pedro Paulo peça pra sair, no mínimo.

Você rápido e zum

zumVocê passou tão rápido e, zum, nem soube se era pra sentir amor saudades raiva nostalgia ódio nada. E eu, veloz, zum, não tive tempo pra resolver se ia ser linda monstro egípcia transparente falsária. Apenas desapareci no cruzamento e, zum, eu e o meu coração passamos o resto do dia jogando conversa fora e comendo sardinha frita.

Não chegamos a nenhuma conclusão.
Mas as sardinhas estavam ótimas.

Fica, Carnaval

ficaFica, Carnaval, que vai ter bolo. Fica. Faço tudo que você quiser, te juro. Te dou comida, roupa lavada e o que mais você pedir. Passo café que é uma beleza. Te prometo os maiores dengos e e as mais novas obscenidades. Te dou a senha do wifi. O meu amor descabido. Fica que vai ser lindo. Não me larga assim, criatura, como quem vai na esquina comprar cigarros e volta só no ano que vem como se não fosse nada. Fica pra sempre, não faz a micareta, vai. Fica, Carnaval, eternamente, mas sem papel passado, só união instável, eu, você e o mundo. Sim, sim, eu sei. Já fiz a sua caveira e falei mal de tu pelas ruas. Barbaridades, confesso. Me perdoa. E fica. Vou passar o resto da vida te jogando confete, falando como és o maioral, não me importo nem com os pequenos maltratos, as minhas marcas roxas e as olheiras por baixo do glitter.
Fica que eu te prometo o paraíso que você finge existir.
Fica, Carnaval, a casa tá uma bagunça e de vez em quando eu choro.
Mas fica, fica, fica.

Figueroas, O Terno, Boogarins no Circo

jardimeletricoDá série vídeos toscos de noites boas. Show do Circo Voador, luxo total, no festival Jardim Elétrico – que ainda teve Bike mas para este não rolou de chegar a tempo porque, coisa maravilha!, os shows começaram praticamente no horário. Aqui uns sons da noite (nem sempre trabalhamos com foco e qualidade, mas sempre com amor).






Arquivado em:pop