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Os monstros vieram se queixar

Os monstros vieram se queixar.
Muito tempo sem sair de casa
Até as traças estão numa boa,  gritaram.
E comeram toda a biblioteca.
Prometi, então, uma noite daquelas.
Uma insônia daquelas.
Uma nóia daquelas.
Quem sabe assim eles ficam quietos.
Quem sabe assim eles me esquecem.

Pra baixar

Eu fiz este cartaz na época da prisão. Era para o meu amigo Gabo levar para Beirute. E joguei na rede.
Uma noite, eu saindo do cinema (não por acaso, tinha ido ver “O Processo”)  e um amigo meu me liga gritando.
“A Angela Davis tá com a Dilma segurando o seu Lula Livre!!” .

Você pode baixar a sua versão favorita clicando aqui.

E tem também esse outro aqui. Baixa e simbora !

Onde as dores se encontram

Ela era nova ali e, como sempre costumava acontecer, chegou com jeito de pouca conversa. Apenas ajeitou os óculos escuros e pediu:

– Um café.

Do outro canto do balcão, veio o comentário em voz baixa.

– Isso aí é amor. Conheço de longe.

Quem disse foi a Marca de Vacina que, estando ali quase desde sempre, sabia reconhecer uma Dor só de olhar.

Era ali naquele canto da alma que todas elas se encontravam. Feridas, Machucados, Corações Partidos, Traumas, Melancolias. Até mesmo ela, uma simples Marca de Vacina.

Os Traumas, conhecidos por sua péssima memória, quando se lembravam dos seus esquecimentos só saíam de lá carregados.

Queimaduras, Cicatrizes e Ferimentos eram famosos pelo eterno ar de mistério. Nascidos de uma batalha heróica ou de um tombo estúpido? No benefício da dúvida estava o charme.

As Tristezas Sem Explicação, velhas senhoras que jogavam buraco e bebiam até cair, moravam no fundo daquela alma antes mesmo que ela existisse.

Cada Dor tinha lá sua mania.

– Me serve qualquer coisa forte. E uma ficha para a jukebox – pediu a moça.

Enquanto preparava a especialidade da casa – uma dose de gim e outra de estricnina –  o barman olhava de rabo de olho para a Marca de Vacina, que já comemorava a vitória do palpite. É que as Dores de Amor tinham como característica maior o seu gosto musical imensamente triste.

Ela pôs pra tocar Johnny Cash e dançou, sozinha, no salão.
E todos ali choraram.

a situação

O encontro é para analisar a situação do país.
Depois da fala de dois grandes nomes da esquerda, um intelectual fumante pede a palavra:
– Estou aqui ouvindo e me veio uma dúvida paralisante.
Breve pausa.
– Me jogo desta janela ou daquela outra?
Risos nervosos . Alguém intervém.
– Que bom que é paralisante . Assim você não se joga de nenhuma delas.

Um artista do outro lado da sala interrompe.
– Jamais me jogarei. Tenho mais de oitenta anos. Sobrevivi à ditadura. Vou sobreviver agora também. E olha fiz de tudo pra sobreviver. Só não vendi maconha.
Mais risos nervosos.
– Mentira, vendi.

 

Eclipse

Parecia, assim, que era meio reveillon.
O povo andando apressado pelo calçadão para ir pra Praia do Diabo ver o eclipse.
Estranhei o interesse súbito por astronomia, depois pensei que era negócio de crise. Pelo menos eclipse é grátis. Mas a verdade é que carioca é animado mesmo. Adora um ajuntamento. Uma farofa. Amo muito.

Parecia tanto reveillon que tinha até casal brigando.
– Que que te custa ir lá dar uma olhadinha?

A Pedra do Arpoador tava com lotação esgotada.
Calçadão também. Mas na areia tinha espaço pra geral. E vendedor de caipirinha. Jogadores de frescobol fingindo que não estavam nem aí pra lua. Cachorros. E muito mais.
E o eclipse? Nada.
– É golpe, eu pensei.
Vai que cancelaram.
E nada.

De repente, começa um alvoroço. Pessoal se levantando nervoso.
– Arrastão! – disse alguém, nestes tempos de neurose na velocidade mil do créu.
Mas era o eclipse. O maior eclipse dos próximos mil anos. Ou dos vinte segundos. Talvez semana que vem tenha outro. Ou uma lua gigante.
Lindeza. Depois alguém resolveu cortar um bolo de aniversário. De um menino. A Praia do Diabo inteira cantou parabéns.
Fiquei pensando que o Rio ainda é meio bom.
Quando ia embora, um homem dizia pro amigo que carioca é tudo escroto.

E foi assim essa sexta. Como se fosse reveillon.
Como se a gente estivesse começando um novo ano.
Vai que estamos.

Beijocas, não

“Então,  beijocas”.

Fico olhando perplexa para aquela mensagem.. Beijocas. Beijocas. É, boy.
Vou ter que sacar meu três oitão.
Porra, beijocas não. Qualquer coisa, mas beijocas não.
Beijocas é a covardia em letras miúdas no zap.

Não tem nada mais broxante do que beijocas.
Vindas da boca de um ex.  E essa  boca já fez de tudo, meu bem, e a minha também, não se esqueça.
Claro, depois deu tudo errado, como manda o figurino. Paciência, avante, simbora.  Já passou foi tempo.
Porém, criatura.
“Beijocas” é querer arrancar o erotismo da vida à força. E não conseguir.
“A felicidade é uma arma quente”.
Beijocas, não as quero, nem se estiver morta.