À porta

O passado bateu à minha porta
E eu abri pensando que era a pizza
O passado bateu à minha porta
E falei: não tem ninguém em casa!
O passado bateu à minha porta
Eu corri para o seu colo
Cheia de saudades
O passado bateu à minha porta
Com uma pilha de cartas antigas
No passado ainda escrevíamos cartas
Cartas antigas para amores velhos
O passado bateu à minha porta
Trouxe flores. Pediu desculpas
O passado bateu à minha porta
Com suas questões tão
Mas tão, mas tão, mas tão
Mil novecentos e antigamente
O passado bateu à minha porta
Disse que veio me dar um toque
Um conselho, uma confusão
O passado bateu à minha porta
E o resto vocês já sabem

Oliver Sacks, obrigada, querido

Meu querido Oliver,

O dia mal começou e eu já estou chorando. Não, você não pegou a gente desprevenido, sabíamos que essa hora chegaria logo. Só estávamos fingindo que não. Só fingindo que você estaria sempre por aqui, sendo amoroso com a gente, a gente que frequenta os consultórios neurológicos. Quantas vezes não peguei um livro seu e pensei: será que desta vez o Oliver vai falar de mim?

Todo mundo é diferente, tá certo. Tem gente que tem úlcera, tem gente que vê borrado. Todo mundo é um pouco igual, também, nascemos e vamos morrer. Quando fecha a conta e passa a régua, só estamos aqui fazendo uns lances. Tem os que mudam o mundo, mas a maioria de nós está aqui só fazendo uns lances.

Todo mundo é diferente, tá certo. Mas quem já passou horas e horas em salas frias de exames neurológicos sabe como ser diferente da cabeça dói. Nem mais, nem menos, apenas muito. A moça perguntando se você lavou seu cabelo com sabão de coco, puxando algum assunto para disfarçar,  aqueles fios sendo colocados na sua cabeça com uma pasta grudenta e você, em silêncio, pedindo para que seus neurônios fiquem quietos. Só por um instante. Só desta vez. Cooperem, garotos. Vamos enganar a medicina. Mas não, eles estão sempre fazendo bagunça.

E você, querido Oliver, foi aquele cara que olhou para a nossa bagunça e ao invés de gritar “arrumem logo tudo isso!!!!!”, apenas riu. E disse assim: “que bela bagunça, hein!”
Por isso, meu eterno amor e muito, muito obrigada!
Seguimos sem você, prometemos ficar bem.

* Jô Hallack tem um EEG do tipo alfa irregular com paroxismos irritativos intercríticos, um jeito complicado e disfarçado de dizer epilepsia.

Mais sobre pessoas que tem trecos e troços, leia aqui.

Esconde-esconde

Tentei ver por onde você andava dentro de mim. Eu sabia que tinha escondido, escondido em algum lugar bem escondido para que ficasse difícil de achar. Era um cantinho ali disfarçado e eu ainda fui colocando um bando de coisa por cima, uma roupas velhas para doar para o abrigo, todas as minhas tarefas de trabalho, os papéis de rascunho, meus rabiscos, as minhas quatrocentos mil e setecentas obrigações destas últimas semanas. Joguei por cima também umas alegrias, minhas músicas preferidas, uns discursos do Mujica, o resto de um chocolate e uma pilha de contas de telefone, atas da reunião de condomínio, extratos bancários que a gente nunca lê. É possível perder tudo numa pilha destas. Eu pensava. Sei não porque resolvi procurar na noite de ontem. Olha só que coisa, eu sabia exatamente onde te achar. Como se eu fosse um cão farejador destes que mostram nos programas de TV. Te encontrei ali perto do fígado. Jogava cartas com a tristeza, o desejo e a indiferença. Não deu tempo de ver quem estava blefando.

Próxima vez:  esconder direito.

Foto: Samuel Zeller

Posso te pedir uma coisa?

É de álcool, é de graça
De desejo, de cachaça
É de medo, de incerteza
De amor, de ver beleza
“Posso te pedir uma coisa? Posso te pedir uma coisa?”
“Queria te ver, te ver, te ver. Eu queria te ver”
Você está borrado
Você está borracho
E de longe diz assim
“Queria te ver, te ver, te ver”

Menininhas requebrando encantadas (o caralho)

Tava lá eu lendo um artigo bem bacana sobre música. Mas ali, quase no final, nos quarenta e cinco do segundo tempo, veio a seguinte frase. “A animação do público atinge o auge sei lá quando com as menininhas requebrando encantadas.” E o lance ficou ecoando na minha cabeça: “menininhas requebrando encantadas”, “menininhas requebrando encantadas”, “menininhas requebrando encantadas”. Como é que é?

Seria eu uma menininha requebrando encantada?

Sim, eu estava lá. Encantada, o show  do Cidadão Instigado foi o mais épico deste ano. Requebrando? Provavelmente. Menina? Com alguma licença poética, sempre. “Menininha requebrando encantada”? Não, obrigada, meu bem. Isso é muito pouco pra gente.

Podemos ser mulheres em êxtase bailando como loucas. Ou a menina que dança dos Novos Baianos. Tem dias que a gente é pomba-gira. Em outros, fechamos os olhos e, sozinhas, viajamos no som. Somos  meninas e mulheres que gostam (e entendem) de música tanto quanto vocês, homens. Não, não somos menininhas requebrando encantadas diante de semideuses da guitarrazzzzzzzz, menininhas em fúria com nossos hormônios enquanto vocês, homens, estão ali pela  música. Estamos nesta juntos, juntos  com a Patti Smith, a Kim Deal,  a Kim Gordon,  a Ava Rocha (seu disco não para de tocar aqui em casa) e muitas, muitas outras e outros também. Sim, podemos achar os músicos lindos, yeah, podemos. A vida é amor, o resto é trilha sonora.

E se a gente dança e se encanta enquanto vocês ficam apenas observando os acordes e comentando com seu amigo “olha só essa pedaleirazzzzz”, talvez estejam sendo bem, bem, bem menininhos. Perdendo o melhor de tudo.

Sejam homens de verdade e venham requebrar encantados com a gente!
Menininha requebrando encantada é o caralho. Somos deusas.  (E, às vezes, apenas garotas)

Sobre o show (requebrante) do Cidadão Instigado, leia aqui.

Qualquer coisa ou uma praia na Bahia


– Fica assim não –
diz o monstro, fazendo o amigo. – Vamos brincar daquele nosso jogo preferido que eu acabei de inventar.
– Você tá falando do “qualquer coisa ou uma praia na Bahia”?
– Sim, é disso mesmo que eu tô falando!
– Começa você.
– Nova York ou uma praia na Bahia?!
– Uma praia na Bahia!
– Berlim que é a nova Nova York?
– Uma praia na Bahia!
– Lisboa que é a nova Berlim?
– Uma praia na Bahia!
– Copenhagen que vai ser a nova Lisboa?
– Vai?
– Parece que tá super na moda. Não para, Copenhagen?!
– Uma praia na Bahia!
– Uma praia na Bahia! Uma praia na Bahia!

Este é o único jogo em que todos estão do mesmo lado. Ainda que mude a geografia, o melhor lugar para se ir será sempre uma praia na Bahia.
A praia imaginária na Bahia que seremos felizes.
Imaginariamente felizes.

Sorveteria

Eu levei os meus monstros para passear
Fomos tomar sorvete
Provamos todos os sabores e ainda repetimos
Sentamos no banco da praça
Nos divertimos vendo as crianças, os velhos e os namorados
Foi uma tarde boa
E de noite eles:
BÚ!

As minhas dores

Quando cheguei, ali estavam. Vivas. Ainda sangravam mas me receberam com o mais doce dos abraços. E em troca do meu carinho, me deram todas as maravilhas. Tudo brilhava, tudo era amuleto. Aos sussurros, disseram que eu precisava ir, sem medo.

Foi um único salto.
Impreciso e trêmulo.
O que veio depois eu chamei de futuro

Nossos trecos e troços

Tem muito tipo de pessoa por aí. Existem pessoas que têm trecos e troços.

Treco é diferente de troço, embora nem eu mesma tenha chegado a uma conclusão exata sobre isso. O troço é uma criatura fiel, sempre te acompanha, até nos piores programas. Alguns ganham nomes científicos e posologia recomendada. Outros, pairam por aí sem explicação. Já o treco é o troço avulso, o bom e velho varejo da banca de jornal. É o troço em seu momento gerúndio, só conjugar para entender: “Me acode, eu estou tendo um treco.” O treco vem e passa. O troço nunca te abandona. Quem tem troço sempre tem trecos. Mas você pode ter uns trecos e não ser considerada uma pessoa de troços. Não é o meu caso. Eu sou uma pessoa que tem trecos e troços.

Eu sei que vocês não gostam dos nossos trecos e troços. A gente também não. A gente odeia eles mais do que tudo. Mas com o tempo, vamos estabelecendo regras de convivência, fazemos piadas e levamos até para tomar sorvete. Queríamos (por alguns segundos) ser que nem vocês, humanos ajustados e perfeitos. Vocês enfrentam a vida sem dar bandeira. A gente vai lá e tem um treco. Não é culpa nossa. Vou escrever em letras bem garrafais para vocês entenderem isso de uma vez por todas: NÃO É CULPA NOSSA. Foi o bingo divino. Vocês foram sorteados com um conjunto de baixelas inox. A gente, com os trecos e troços. Em suma: vocês deveriam ser gratos. Mas não.

Qual de nós – pessoas dos trecos e troços – não ouviu, pelo menos uma vez na vida, uma destas frases. “Lá vem você com seus troços”. “Não me venha ter um treco”. Pois se você já disse (ou pensou) estas pérolas , este texto foi escrito para você.  Pois se você já fez um comentário irônico quando era para dar colo ou supõe que nossos trecos são pura incompetência, falta de terapia ou de suco detox, este texto foi escrito para você.  Sim, eu poderia interpretar isso como o seu medo. O medo dos trecos que você esconde no armário. O medo do troço final que dele ninguém escapa. Mas hoje não estou com esta boa vontade.

Este texto foi escrito para – em nome de todas as pessoas que têm trecos e troços – te mandar, formalmente, À MERDA. Te mandar, amorosamente, À MERDA.

Desculpe a falta de jeito, tava pra fazer isso há muito tempo.

Rota

Não existe coisa mais linda nesse mundo. Ele abre o porta-luvas daquele gol amarelo e – sem precisar se virar – lhe estende a mão com um pacote de lenços de papel.

– Vamos para onde?

E para onde íamos mesmo? Íamos para a Lua, para a Cidade do México, para as selvas escondidas do Laos. Íamos desbravar novas civilizações, percorrer todos os cafés de Paris, refazer a rota das especiarias, conquistar os18 territórios. Mas o mundo encurtou.

– Vamos para Gávea.

Não existe coisa mais linda nesse mundo do que aquele silêncio amoroso. Ele não vai tentar decifrar os motivos. Não vai dizer que você merece coisa melhor. Nunca argumentará que foi melhor assim. E que ao menos foi rápido. Que você já passou por isso. Ele não ousará falar que as coisas vão ficar bem.

Quem passa doze horas atrás de um volante sabe da vida de verdade.

Se você nunca chorou num banco de trás de um táxi, talvez você tenha amado de pouco. E por isso, justamente, tenha sido mais feliz.

* 02 Neurônio, 2006

Num passe

É pra tomar um passe de mágica até que tudo passe
Talvez você não passe de mágica e um dia isso passe
Que todo passe é mágica
Que tudo passe é mágica
Que o amor não passe.
De mágica. De mágica. De mágica
Num passe de mágica.

Carta a Plutão

Já aconteceu com todo mundo e a gente sabe como dói: um dia você é a rainha da cocada preta, o fodão do Bairro Peixoto, o amor da minha vida, a última bolacha no pacote. No outro, simplesmente, está fora.  Um dia você é um planeta parte do nosso sistema solar, rodando feliz ao redor do Sol junto com a turma, tendo seu nome sussurrado e decorado por crianças em todos os cantos. No outro, rebaixado a um planeta anão. Fim da festa. Não é fácil.

Mas o mundo dá voltas e você também, Plutão, você dá voltas – mesmo que a sua órbita não seja a mais perfeita de todas.  E aqui estamos: um dia uma  sonda espacial não-tripulada te dá este chega mais e descobre que aí também tem um coração . Pronto: a humanidade inteira volta a lhe adorar. Já aconteceu com a gente.

Querido, eu te digo o seguinte: esses humanos não valem nada. Dizem, inclusive, que quando desaparecerem, a Terra voltará ao seu perfeito equilíbrio e, do jeito que a coisa anda, não demora.  Por isso, não se faça de rogado. Aceite os galanteios e todos estes coraçõezinhos com a mão que este povo faz por aí.  A vingança é um prato que se come frio.  Você é feito de rocha e gelo, meu bem, já deve saber.

* “If all mankind were to disappear, the world would regenerate back to the rich state of equilibrium that existed ten thousand years ago. If insects were to vanish, the environment would collapse into chaos.” E.O. Wilson