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Olá, senhora

Sujeito, nas últimas, vê entrar uma mulher no quarto do hospital. – Você vem sempre por aqui? – pergunta, sem perder tempo. – Sempre. Quase toda semana. Diz isso e sorri, tímida. Ela se senta na beira da cama e abre a bolsa. Tira um… Read More

I-Ching

“Se eu te perdi não vou voltar pra buscar.” Uma velha conversando com as próprias sacolas subindo a Santo Amaro. Mas eu pensei que era o I-Ching.

Piano para crianças estranhas

Fui parar lá através de um tuite do Jorge Drexler, falando sobre uma versão de “Creep” do Radiohed. Era do grupo espanhol Marlango, formado por Leonor Watling (mulher de Drexler) e pelo pianista Alejandro Pelayo. E no soundcloud de Pelayo encontrei pequenas peças de piano… Read More

Da sua mentira, cai

Quando era asa nadei Na correnteza do vento No chão, rainha é a areia E os grãos que tudo devoram Quando era asa voei Da sua mentira, cai ‪#‎cabopolonionovembro2015‬

O que sempre

mocaMas o que sempre nos pediram?
Que até quando fôssemos ao inferno, fôssemos belas.
Que usássemos os talheres apropriadamente.
Que só quebrássemos os pratos em noites de casamento.
Que mantivéssemos o tom sereno nos dias perversos.
Baby, baby, é que eu não vou mais pentear o cabelo.
A civilização acaba quando começa o amor.

Morrer pela manhã

Cabelos em nós e, da beira da cama, eu salto. Queda livre. E morro. De pijama. E salto. E morro. E salto. E morro. E salto. E morro. E salto. Mas que feio não aprende com os hematomas. E morro. Flutuo e despenco. Que eu quebre todos meus ossos em um abraço. Que eu morra mais uma vez neste abismo (quemorrermanha, só hoje, eu chamei de você)

‘La isla mínima’

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Fui no Festival do Rio ver “La Isla Mínima” (ou “Pecados Antigos, Longas Sombras”), thriller que se passa nos anos 80, numa região rural da Espanha onde dois detetives – de ideologias opostas – têm que desvendar assassinatos de garotas. A história é boa e a fotografia absurda, pontuada por tomada áreas incríveis, numa paisagem estranha e linda, em cenas muitas vezes enquadradas pela janela de um carro, planos sergio leone, esquece o seu netflix meu bem, e vai pro cinema ver tudo isso em uma tela bem grande.

O ponto de partida do trabalho é a obra do fotógrafo espanhol, Atin Aya, que retratou os moradores de áreas rurais da região perto de Sevilha. Em entrevista, o diretor Alberto Rodríguez ri pelo fato de muita gente achar que ele se inspirou em “True Detective” (e, sim, não tem como não lembrar). “Em 2000 fui ver uma exposição de Atín Aya, ‘Marismas del Guadalquivir’,  e aquelas imagens transformaram minha percepção do lugar. Estava com Alex Catalán, diretor de fotografia do filme, e saímos pensando que era o cenário perfeito para um western”, disse. Há até uma cena em que uma foi recriada uma fotografia de Aya. É a imagem abaixo, que foi “sampleada”, uma declarada homenagem.

islaaya3islaaya1ayapbayapb3Dá para ver muito mais aqui.

As tomadas áreas foram inspiradas em um outro fotógrafo, Héctor Garrido. As abaixo, são as do filme mesmo. Mais sobre Hector Garrido aqui.
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PS: O filme ainda tem uma última sessão no Festival do Rio, dia 13 no Odeon. E não, a sua televisão de mil polegadas não é suficiente.

Do outro lado

tvoldSerá que quem está do outro lado da televisão vê quem está sentado no sofá?

Pois ela jurava que sim e, por isso, quando tinha show do Roberto Carlos na TV, tinha certeza que o Rei ia olhar para ela. E se arrumava toda. A melhor roupa, o brinco, o cabelo penteado. Eu sempre achei graça desta história. Como poderia alguém pensar essa bobagem.

Só que eu estou aqui, em frente ao computador. Visitando aquela nossa troca de mensagens até que a bolinha verde avisa: você acaba de ficar online. Mesmo que eu esteja em silêncio total, a certeza é que você está me vendo do outro lado da tela do computador.

Acho que da próxima vez vou fazer isso com a melhor roupa, o brinco, o cabelo penteado. Esse negócio de tecnologia é complicado, nunca se sabe.

Foto: John Atherton

Arrependei-vos! O fim do mundo chegou

martePassamos a vida toda fazendo piadas e rindo dos fanáticos que gritavam “Arrependei-vos! O fim do mundo está chegando”. E  agora, o que acontece. Estamos aqui dando razão a eles. O fim do mundo chegou.  As virgens estão ficando grávidas – no Reino Unido já são mais de 20! – e nosso grande líder é um Papa (!!) aparentemente comunista (!!!!) e, talvez, secretamente ateu (!!!!!).  Isso porque não estou nem falando ainda de política, das guerras, das pragas, dos terremotos (o Pacífico não para de tremer, viu?) e do enorme acerto de contas que está rolando – pessoas do passado voltando para pedir perdão e tudo, e  – mais – ao som do A-ha.

Mas hoje, a descoberta da água em Marte nos trouxe uma esperança. Agora temos duas opções: ficar para o apocalipse ou fugir para o planeta vizinho, onde seremos escravizados pelos marcianos. Os marcianos, ao contrário da nossa torcida desde sempre, não são verdes, caso existam serão reles micróbios. Como ser escravizada por micróbios não está nos meus planos – embora isso, às vezes, aconteça, mas estou tentando mudar  – pretendo ficar para ver o fim do mundo. Apocalipse deve ser uma coisa horrível, bolas de fogo, monstros, a terra se abrindo e – olha que fim deprê para a humanidade – a gente tentando postar mais uma coisinha no Face. Mas considero uma espécie de sorte estar por aqui num momento histórico. De verdade.

A parte do arrependimento não vai rolar. Estudei a minha vida inteira em colégio de padre, muita  culpa cristã,  mas depois gastei minhas economias na terapia tentando me livrar de todas elas. Por isso, arrependimentos não existirão.  Aos que partem para o espaço, forte abraço nos incas venusianos. Foi um prazer.  Com alguns, claro, bem mais do que com outros.

Roubar nega – ‘O pequeno livro das memórias fantásticas’

roubarnegaPor Xico Sá

Roubar manga de quintal é moleza. Roubar peixe de açude, como fazia com a minha cambada do Sítio das Cobras na Nação Cariri, ainda mais fácil ainda, embora valesse alguns respingos de tiro de sal no espinhaço (proustianos corações). Roubar livro na Livro 7, a maior livraria do Brasil que ficava no Recife das minhas boyzinhas morenas, fichinha, café pequeno, solavanco, um “fui” de nada.

Roubar cabrito? Arte de furtar galinhas? Fazíamos, meu velho, tira-gostos das primeiras cachaças juvenis. Tudo é fácil. Trem pagador inglês? Ih, mais fácil que acordar de pau duro. “O que é roubar um banco diante de fundá-lo”, pergunta também o menino Brecht, marxistas corações. É barbada subtrair o capital. Difícil mesmo, meus jovens, é roubar mulher. Não falo nem de coração de mulher. Nossa Senhora! Me refiro apenas ao bípede mais gostoso do planeta depois da perdiz e da nambu assadinha, ossos quebradiços na boca de cerveja.

E o roubo de mulheres me endoidavam a tenra infância aurora dos oito anos (que não volta nunca mais). Roubar mulher era tirar da casa dos pais, que rejeitavam um certo destemido genro. Por preconceito ou zelo excessivo com a bucetinha que alimentaram com tanto sacrifício. O cabra combinava com a nega na calada da noite. Mote e fuga. Dois dias depois voltava para casar. À força. Diante do descabaçamento cordial, nada mais restava aos velhos além do desgosto da sonsa. A notícia se espalhava nos nossos ouvidos. “Roubaram fulaninha de tal”…

xico* “Roubar nega” foi publicado em “O Pequeno Livro das Memórias Fantásticas. Volume I: contravenção”. Xico Sá é cronista, escritor, homem adorado e autor de “Big Jato”. “O Pequeno Livro … ” foi lançado “por volta” de 2000, um microzine no melhor estilo papel e xerox.

+ do Pequeno Livro das Memórias Fantásticas
“O comunicador do Aquaman” por Rodrigo Brandão (Gorila Urbano)
“Mentira” por Domenico Lancellotti
“Tubarão” por Eduk K

Água tônica *

– Nunca me senti tão leve. – É? – Não me sentia assim desde que descobri qual era a minha cor favorita. – Qual é? – Verde. – E agora? – Agora que eu descobri que o que eu gosto mesmo é de água tônica.… Read More