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Beijocas, não

“Então,  beijocas”. Fico olhando perplexa para aquela mensagem.. Beijocas. Beijocas. É, boy. Vou ter que sacar meu três oitão. Porra, beijocas não. Qualquer coisa, mas beijocas não. Beijocas é a covardia em letras miúdas no zap. Não tem nada mais broxante do que beijocas. Vindas… Read More

Europa

Na lua o maior dos oceanos
Pra fazer deus rir: planos
O mundo salgado debaixo do gelo
eu me perdi num cacho do seu cabelo
Um labirinto
Um caracol
Eu sou liberdade
Você meu anzol
E rabisco com letras tortas
Esse universo que inventei
Cheio de estrelas mortas

os amores que aqui não estão

Para onde vão os amores que não mais estão? Para onde?
Se escondem pela casa,  metidos em frestas, junto com as traças, se alimentado dos meus próprios restos.

Enquanto em durmo, eles se deitam ao meu lado e sussurram.
Lembra como foi bom?
Lembra com foi ruim?

Chamei a dedetização.

O reino hipster do hortifruti

Era para ser só uma compra de lances pra faxina mas, no site do supermercado, apareceu o grande anúncio colorido. “Conheça a fruta do momento”. Letras garrafais. Climão. Avimaria, jamais pensei que tivesse que acompanhar as tendências no segmento das frutas. Mas me vi ali, nas portas do reino hipster do hortifruti.

Cliquei.

Pitaya, é ela, a fruta do momento, rosa choque escândalo, e continuei me inteirando, “é doce e tem baixo nível de calorias. Fonte de Vitamina C, rica em fibras e minerais, principalmente fósforo e cálcio. Possui quantidades significativas de antioxidantes, que previnem os radicais livres.” Saudades de quando uma fruta era uma fruta e tava mais que bom. Hoje elas vem até com bula. Certeza de que o mundo complicou.

Lembro de um dia,  hora da sobremesa.  Ele parece na sala de jantar com quatro kiwis em uma bandeja. Toda a mesa faz “óóóó”.  O pai vai logo avisando que não é pra acostumar. Só daquela vez, “só para experimentar”.  Cês num têm nostalgia de umas coisas loucas, quando a vida era meio ruim?  Kiwi era extravagância, o cinema nem tinha lugar marcado e quando abria a porta da sala todo mundo saia correndo como se fosse o apocalipse, era horrivelmente bom, sei lá. Eu tenho saudades daquele mundo mais impossível, em que eu sonharia a vida toda com uma pitaya porém jamais provaria. Ficaria querendo para sempre essa fruta exótica, e planejando uma viagem até um pequeno povoado da América Central, talvez nem tão naif, só comer uma pitaya em um mercado na Cidade do México, mas nunca chegaria lá. O desejo, o desejo. o desejo.

A pitaya foi entregue ontem aqui em casa junto com o sabão em pó e a água sanitária.
Tem gosto de melão. De melão, pense num desgosto.
Saudades, mundo impossível.

E eu te conheço?

“Dormiu comigo?”, ele perguntou.
Acho que não.
“E não deu bom dia por que?”, continuou, ofendido.

Porque não. E me deixa. Vai ver seu tô lá na esquina. Um beijo e não me liga.
Quem disse que ele sossegou?  O fulano veio atrás, só dando ideia errada, que eu tinha que isso, e aquilo e sei lá mais o que.  Falou um monte.   E eu? Fazendo a sonsa.  Por acaso eu te dei essa intimidade, criatura? Nem te conheço.  Eita, aí o caboclo virou bicho. Falou tudo da minha vida,  que eu era louca por ele, só pensava nele e nele e nele. Depois partiu para a sessão de fracassos. Aos berros,  para quem passasse por ali, gritou todos os meus defeitos, disse que eu tinha boleto em aberto e tudo mais.  Eu?  Fazendo a egípcia.  Linda, maravilhosa, aquele ventilador de diva imaginário. Comigo não, violão.
Respirei fundo e com um cínico e delicado sorriso, mandei um..

Certamente o senhor está me confundido com outra pessoa. Passar bem e bom ano.

Tomei meu rumo. E ele? Ficou pela rua, desnorteado. Perplexo.
Avimaria, como eu amo enganar um Problema!

A arte das listas

1Um certo dia, nos idos de não sei quando, tive uma briga fútil com minha amiga Nina.
Falávamos sobre os planos de dominação mundial do 02 Neurônio (que, como sabemos, falharam) e, num dado momento da discussão por email, ela escreveu assim: eu não aguento mais as suas listas. Quer dizer, na minha memória foi em letras bem garrafais em caps lock gigantes. EU NÃO AGUENTO MAIS AS SUAS LISTAS. EU NÃO AGUENTO MAIS AS SUAS LISTAS.

Verdade, eu tenho mania de listas.
Escrevo, reescrevo, agora mesmo, olhando por aqui, eu vejo umas três jogadas pela mesa.
As listas não fazem de mim uma pessoa organizada e fazedora de suas tarefas, não, não fazem.
Porque eu sou bagunceira (e tenho orgulho), procrastinadora (e morro de culpa), mas está lá no meu mapa astral: virgem com ascendente em virgem.
Então, eu faço listas.

Nesta época do ano, nos afeiçoamos ainda mais às listas. Guardamos os últimos dias de 2016 para tudo que há de ordinário nessa vida: marcar o exame médico, consertar o gás, passar no banco. A lista de 2017, por sua vez, é cheia de planos sonhadores, amar exageradamente, ficar na praia o mais tempo possível, desprezar o capitalismo, coisas assim.

E entre uma tarefa da minha lista (consultar o oculista) e outra (fazer os óculos), vi na vitrine da livraria o maravilhoso “Listas Extraordinárias”, de Shaun Usher, um obcecado pelo assunto. O livro tem mais de uma centena de listas, dos mais diversos temas. A lista das Bruxas de Salem, datada de 1692, com o nome das mulheres acusadas de bruxaria e de seus acusadores. A lista de todos os nomes possíveis para os sete anões (cinquenta, ao todo), pois nos contos de Grimm eles eram apenas os sete anões mesmo e só foram “batizados” na adaptação da Disney de 1934. Esbaforrido, Pavão, Ranheta, Piegas foram alguns que ficaram de fora. Em 1877, Thomas Edison também fez uma lista de nomes para a sua nova invenção, como orqueógrafo, trematofone, eletrofemista e palmofone. No fim das contas, escolheu fonógrafo.

Existem listas de amor, com uma “to do list” de Jonnhy Cash com a melhor tarefa de todos os tempos: Kiss June (seguida de “não beijar mais ninguém”). Uma lista de Sid Vicious com todas as coisas que ele amava em Nancy (conversa extremamente interessante e a buceta molhada mais linda do mundo). Uma lista de Marilyn Monroe dos homens que ela pegaria.

Existem listas de ódio, como uma de Albert Eistein para sua mulher, com as exigências que ela deveria seguir para que eles continuassem casados. Entre elas: “Você observará os seguintes pontos em suas relações comigo: não esperará nenhuma intimidade de minha parte, nem me repreenderá de forma alguma, parará de falar comigo, quando eu lhe pedir. Sairá do meu quarto ou de meu escritório imediatamente e sem objeções, quando eu lhe pedir.” Basicamente, a lista transforma o gênio da física num monstro, mas pelo menos Mileva Maric largou o marido alguns meses depois.

Muitas listas de escritores e poetas, de como escrever melhor, rascunhos de poemas, como levar a vida. Uma lista da violência em cantigas infantis escrita em 1952, em que o estudioso analisa as músicas e conta 2 casos de morte por asfixia, 1 caso de morte por esmagamento, 1 pela fome e 1 por ressecamento, 15 alusões a pessoas ou animais mutilados, 1 caso de ingestão de carne humana. Mark Twain fez uma lista com “etiquetas de salvamento de uma pensão em chamas”. Salvar primeiro as noivas, em segundo as pessoas pelo qual o salvador sente afeição, porém ainda não se declarou, só depois as irmãs. Os bebês estão no 13 lugar na ordem de salvamento, os empregados devem ser salvos antes dos proprietários. E os móveis, antes das sogras (o último item desta lista de 27)!

Do decálogo da máfia à lista de compras de Galileu para fazer um telescópio decente (o primeiro foi feito com lentes de óculos), de uma lista de Susan Sontag sobre regras para criar um filho a uma com os efeitos do ópio em quantidade (32 efeitos, sendo o último, a morte), seguida de uma com as contradições do ópio, 26 ao todo, entre elas, provocar sonolência e insônia, levar à loucura e tranquilizar ao mesmo tempo.

Um livro maravilhoso para os amantes de listas. E encerro aqui com alguns itens da lista de F.Scott Fitzgerald sobre “coisas que você não deve se preocupar”.
“Não se preocupe com o passado.
Não se preocupe com o futuro.
Não se preocupe com decepções.
Não se preocupe com prazeres.
Não se preocupe com satisfações.
Não se preocupe com insetos.” (Nota da redação: ignore este item)

PS: Ao final deste artigo, elaborei a seguinte lista.

Listas do livro 125
Listas escritas por (ou para) mulheres 19
Listas de mulheres sobre etiqueta, amor, receitas, filhos, corpo 9
Listas de mulheres sobre quem matou Kennedy 1
Listas de mulheres sobre como ser roqueira 1
Listas de mulheres sobre presentes para a rainha 1 (escrita pela própria)
Listas de mulheres sobre como se concentrar 2
Listas de mulheres sobre o atentado do WTC 1
Listas de mulheres sobre artes e livros 2
Listas de mulheres com nome para invenções 1
Listas de mulheres com nomes de desaparecidos 1

Listas ferrando com as mulheres 2
Listas ferrando com os homens 0

* sujeita a recontagem

ode ridícula ao parêntese

Algumas teclas quebraram por aqui.
Não tenho mais zero.
Volume, só o de aumentar. Diminuir, esquece.
Hífen foi comprar cigarros e nunca mais voltou.

Mas confesso que o que está pegando mesmo é o parêntese.
O segundo, sabe? Pra fechar as coisas. Encerrar o assunto.
A minha mania de deixar tudo meio por fazer, jogada na minha cara por um teclado velho.

Parêntese, volta.
tô sentindo sua falta.

E também do emoticon do sorrisinho. nesse mundo cheio de tristeza.

:( :(

diário monstros número 46292

os monstros me chamaram pra fazer um piquenique.

tinha bolo meio de festa eu perguntei o porquê. eles disseram que estavam comemorando a minha vida estar pior do que a sua.

nadamos na represa.
bife a milanesa frio no pão francês.
quando  foram no pedalinho, eu fugi.

abri a porta de casa, eles já estavam lá. são os túneis. que eles cavam.
fizemos pipoca, uma zebra fugindo do leão na tevê, eles perguntaram se eu ainda pensava em você. e eu respondi: coitada da zebra.

Amanhã é um dia triste

“No final tudo dá certo.”
Sempre detestei este tipo de consolo. A começar pelo óbvio: no final, morremos. Eu sei que isso é spoiler, um detalhe incômodo, mas é assim que é . No final, morremos.
Depois?  Talvez poeira cósmica. Andar pelas nuvens de camisolão . Voltar como bebê e recomeçar do zero.  Aí, amigos, é uma questão de crença. Mas, seja qual for a alternativa, essa não é a minha ideia de “dar certo”.  Duvido que seja a sua. Por isso, vamos ser sinceros uma vez na vida. No final, morremos. No final, tudo dá errado.

E o final, muchachos, é amanhã.
Amanhã é um dia triste.
Sem essa de panos quentes,  não cantarola “levanta e sacode a poeira”, faz favor, não diz que “a revolução é interior”, isso é mentira, te peço, não vem lembrar que a vida tem coisa boa,  o novo Woody Allen,  praia,  picadinho, cachoeira, amor, beijo no cangote, paçoca.

Tristeza não se afasta. Tristeza se respeita.
Amanhã é um dia triste pra caralho.

Antitutorial da vida

Não sei.
Marcenaria, tricô, quais são todos os países da Europa, japonês.
Minecraft, tocar violão, costurar um capuz de unicórnio ou panda.
Técnica contra assalto de um roubo de bolsa. Em dois golpes.
Olho gatinha com delineador. Falar “Rihanna” direito.
Me atrapalho.
Também.
Na diferença de quati para guaxinim.

Sei.
Receita de tiramisú.
Contar abismos.
Setecentos e vinte nove da última vez.

uma frase boa

Uma frase boa veio me visitar. Uma frase boa, saca, dessas que explicariam tudo e eu, camisola, pijama, olhei pra ela e disse, que linda é tu, menina, perfeita. E eu, tua mãe, tua dona, gênia da lâmpada que te inventei. Mas ele veio e… Read More

Por um botão localizador em cada pequena coisa do mundo

Considero o telefone sem fio uma invenção incrível.  Não porque vem sem aquele fio chato que enrola ou porque dá pra falar com ele em qualquer lugar da casa. Pra mim, a melhor coisa de todas é o seu botão localizador, é só apertá-lo e o telefone apita e você descobre que ele estava escondido debaixo de cinco almofadas. Dentro do armário. Na sua bolsa. Que alegria!

Sempre achei, inclusive, que tudo na vida deveria ter o botão localizador,  a chave de casa,  minhas pequenas coisinhas, até mesmo  a cabeça e o coração.

Seria de uma utilidade maravilhosa,  pensem, para aqueles momentos em que os afazeres se acumulam e você não sabe por onde anda sua cabeça.  Prático, bastaria apertar o botão para descobrir onde ela estava, provavelmente em um lugar bem distante, uma ilha vulcânica onde tudo parece fazer mais sentido, outras vezes você encontraria sua cabeça nas caixas antigas que ficam na última prateleira da estante, junto com sua memórias de criança ou, então, a cabeça talvez tenha ido parar no mundo imaginário que caminha do lado do nosso, nesse mundo onde também moramos mas em uma outra vida .  Claro, continuaríamos perdendo a cabeça vez por outra, e tal. Mas seria mais fácil encontrá-la e consertar tudo.

No caso do coração,  também seria de grande valia esta nova invenção, porque tem vezes que ele some e você não sabe onde ele  se meteu. Com o botão localizador nada estaria resolvido – porque coisas do coração não são  da natureza de resolvências – mas a gente pelo menos ia descobrir onde ele foi parar, só a título de curiosidade mesmo.  Tem vezes que ele aparece em cada lugar tão louco, talvez eu tenha esquecido na sua casa ou, então, eu o encontraria atrás do piano de um apartamento que eu não frequento mais,  porra, coração, tu não aprende, e eu arrastaria de volta.  Não seriam poucas as vezes que o botão localizador ia achar o coração no reino do platonismo,  eu ia ter que pegar à força, passar um pito, eu falei pra você não andar com essa gente que, inclusive, olha, elas nem existem.

É isso.
Só pra dizer que o meu cartão de banco continua desaparecido.

A fábula da mulher impossível

Em outras rodas, e pelas ruas, e pelas bocas, em velhas juras.
Em novas dores, com outros homens, em todas camas, e seus amores.
Nos mesmos erros, antigos trastes, em todas brasas, no carnaval.
Sempre nos bêbados, nos seus rascunhos, nos infelizes,  na solidão.
A mulher impossível está do outro lado da porta.
Esperando que você abra.

As queridas ficam

Dilma-1970-DEF

Que tem machismo, a gente já sabia.
E que a misoginia anda por aí de boas, pois é.
É tão escancarado, que um homem que bate em mulher vai se candidatar a prefeito e é isso.
Ontem foi um circo dos horrores, tá claro. Teve gente dedicando voto a torturador. E tudo. Conforme a votação avançava, avançava também a tentativa de humilhar e calar as mulheres que se posicionavam a favor da presidenta. Elas, principalmente elas. Com vaias. Com urros.
As mulheres.
Escrevo este texto aos prantos, sabe como é, a gente pode se emocionar pra valer, só os boys é que don’t cry. A gente é puro coração (e tudo mais). Mas é o seguinte.

TCHAU O CARALHO.
AS QUERIDAS FICAM.
SOMOS MUITAS E VAMOS BOTAR PRA FUDER.

Ficou decidido assim

Ficou combinado assim. Na impossibilidade de chegar a um acordo – aparentemente, o resultado da eleição não estava valendo! – todo o futuro da nação seria decidido em uma partida de queimada. Uma única partida, disputada por dois times, dois times de uma mesma família… Read More